segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Caros alunos(as),
Com o objetivo de possibilitar um espaço de reflexão filosófica, como já estabelecido ao longo dos bimestres, disponibilizamos um texto (Introdução) recortado da Encíclica FIDES ET RATIO (Entre a Fé a Razão) do papa João Paulo II. A escolha do texto se justifica pela retomada histórica que estamos realizando sobre a Filosofia ao longo de sua trajetória desde a Grécia Clássica - Chegamos a trabalhar a Filosofia Medieval na qual a grande questão era da possibilidade de conciliação entre Fé e Razão (da Patrística até a Escolástica). É importante que cada um posicione-se criticamente diante do texto tentando captar como uma instituição Religiosa (Igreja Católica) apresenta, ou elabora, o confronto entre Religião e Razão (Filosofia, especificamente falando). A dinâmica proposta é: leitura do texto (orientada pelo professor), discussão (orientada) nos pequenos grupos e depois  no grande grupo.



TEXTO:  "ENTRE FÉ E RAZÃO"

 

INTRODUÇÃO - «CONHECE-TE A TI MESMO »
1. Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível entrever um caminho que, ao longo dos séculos, levou a humanidade a encontrar-se progressivamente com a verdade e a confrontar-se com ela. É um caminho que se realizou — nem podia ser de outro modo — no âmbito da autoconsciência pessoal: quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo, tanto mais se conhece a si mesmo na sua unicidade, ao mesmo tempo que nele se torna cada vez mais premente a questão do sentido das coisas e da sua própria existência. O que chega a ser objecto do nosso conhecimento, torna-se por isso mesmo parte da nossa vida. A recomendação conhece-te a ti mesmo estava esculpida no dintel do templo de Delfos, para testemunhar uma verdade basilar que deve ser assumida como regra mínima de todo o homem que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua qualificação de « homem », ou seja, enquanto «conhecedor de si mesmo ».
Aliás, basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá depois desta vida? Estas perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais perguntas depende efectivamente a orientação que se imprime à existência.
2. A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, a este caminho de pesquisa. Desde que recebeu, no Mistério Pascal, o dom da verdade última sobre a vida do homem, ela fez-se peregrina pelas estradas do mundo, para anunciar que Jesus Cristo é « o caminho, a verdade e a vida » (Jo 14, 6). De entre os vários serviços que ela deve oferecer à humanidade, há um cuja responsabilidade lhe cabe de modo absolutamente peculiar: é a diaconia da verdade. 1 Por um lado, esta missão torna a comunidade crente participante do esforço comum que a humanidade realiza para alcançar a verdade, 2 e, por outro, obriga-a a empenhar-se no anúncio das certezas adquiridas, ciente todavia de que cada verdade alcançada é apenas mais uma etapa rumo àquela verdade plena que se há--de manifestar na última revelação de Deus: « Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita, então conhecerei exactamente » (1 Cor 13, 12).
3. Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade. O termo filosofia significa, segundo a etimologia grega, « amor à sabedoria ». Efectivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se quando o homem principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim. Ela demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão, embora as respostas, que esta aos poucos vai dando, se integrem num horizonte que evidencia a complementaridade das diferentes culturas onde o homem vive.
A grande incidência que a filosofia teve na formação e desenvolvimento das culturas do Ocidente não deve fazer-nos esquecer a influência que a mesma exerceu também nos modos de conceber a existência presentes no Oriente. Na realidade, cada povo possui a sua própria sabedoria natural, que tende, como autêntica riqueza das culturas, a exprimir-se e a maturar em formas propriamente filosóficas. Prova da verdade de tudo isto é a existência duma forma basilar de conhecimento filosófico, que perdura até aos nossos dias e que se pode constatar nos próprios postulados em que as várias legislações nacionais e internacionais se inspiram para regular a vida social.
4. Deve-se assinalar, porém, que, por detrás dum único termo, se escondem significados diferentes. Por isso, é necessária uma explicitação preliminar. Impelido pelo desejo de descobrir a verdade última da existência, o homem procura adquirir aqueles conhecimentos universais que lhe permitam uma melhor compreensão de si mesmo e progredir na sua realização. Os conhecimentos fundamentais nascem da maravilha que nele suscita a contemplação da criação: o ser humano enche-se de encanto ao descobrir-se incluído no mundo e relacionado com outros seres semelhantes, com quem partilha o destino. Parte daqui o caminho que o levará, depois, à descoberta de horizontes de conhecimentos sempre novos. Sem tal assombro, o homem tornar-se-ia repetitivo e, pouco a pouco, incapaz de uma existência verdadeiramente pessoal.
A capacidade reflexiva própria do intelecto humano permite elaborar, através da actividade filosófica, uma forma de pensamento rigoroso, e assim construir, com coerência lógica entre as afirmações e coesão orgânica dos conteúdos, um conhecimento sistemático. Graças a tal processo, alcançaram-se, em contextos culturais diversos e em diferentes épocas históricas, resultados que levaram à elaboração de verdadeiros sistemas de pensamento. Historicamente isto gerou muitas vezes a tentação de identificar uma única corrente com o pensamento filosófico inteiro. Mas, nestes casos, é claro que entra em jogo uma certa «soberba filosófica », que pretende arvorar em leitura universal a própria perspectiva e visão imperfeita. Na realidade, cada sistema filosófico, sempre no respeito da sua integridade e livre de qualquer instrumentalização, deve reconhecer a prioridade do pensar filosófico de que teve origem e ao qual deve coerentemente servir.
Neste sentido, é possível, não obstante a mudança dos tempos e os progressos do saber, reconhecer um núcleo de conhecimentos filosóficos, cuja presença é constante na história do pensamento. Pense-se, só como exemplo, nos princípios de não-contradição, finalidade, causalidade, e ainda na concepção da pessoa como sujeito livre e inteligente, e na sua capacidade de conhecer Deus, a verdade, o bem; pense-se, além disso, em algumas normas morais fundamentais que geralmente são aceites por todos. Estes e outros temas indicam que, para além das correntes de pensamento, existe um conjunto de conhecimentos, nos quais é possível ver uma espécie de património espiritual da humanidade. É como se nos encontrássemos perante uma filosofia implícita, em virtude da qual cada um sente que possui estes princípios, embora de forma genérica e não reflectida. Estes conhecimentos, precisamente porque partilhados em certa medida por todos, deveriam constituir uma espécie de ponto de referência para as diversas escolas filosóficas. Quando a razão consegue intuir e formular os princípios primeiros e universais do ser, e deles deduzir correcta e coerentemente conclusões de ordem lógica e deontológica, então pode-se considerar uma razão recta, ou, como era chamada pelos antigos, orthòs logos, recta ratio.
5. A Igreja, por sua vez, não pode deixar de apreciar o esforço da razão na consecução de objectivos que tornem cada vez mais digna a existência pessoal. Na verdade, ela vê, na filosofia, o caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do homem. Ao mesmo tempo, considera a filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem ainda.
Na sequência de iniciativas análogas dos meus Predecessores, desejo também eu debruçar-me sobre esta actividade peculiar da razão. Faço-o movido pela constatação, sobretudo em nossos dias, de que a busca da verdade última aparece muitas vezes ofuscada. A filosofia moderna possui, sem dúvida, o grande mérito de ter concentrado a sua atenção sobre o homem. Partindo daí, uma razão cheia de interrogativos levou por diante o seu desejo de conhecer sempre mais ampla e profundamente. Desta forma, foram construídos sistemas de pensamento complexos, que deram os seus frutos nos diversos âmbitos do conhecimento, favorecendo o progresso da cultura e da história. A antropologia, a lógica, as ciências da natureza, a história, a linguística, de algum modo todo o universo do saber foi abarcado. Todavia, os resultados positivos alcançados não devem levar a transcurar o facto de que essa mesma razão, porque ocupada a investigar de maneira unilateral o homem como objecto, parece ter-se esquecido de que este é sempre chamado a voltar-se também para uma realidade que o transcende. Sem referência a esta, cada um fica ao sabor do livre arbítrio, e a sua condição de pessoa acaba por ser avaliada com critérios pragmáticos baseados essencialmente sobre o dado experimental, na errada convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica. Foi assim que a razão, sob o peso de tanto saber, em vez de exprimir melhor a tensão para a verdade, curvou-se sobre si mesma, tornando-se incapaz, com o passar do tempo, de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser. A filosofia moderna, esquecendo-se de orientar a sua pesquisa para o ser, concentrou a própria investigação sobre o conhecimento humano. Em vez de se apoiar sobre a capacidade que o homem tem de conhecer a verdade, preferiu sublinhar as suas limitações e condicionalismos.
Daí provieram várias formas de agnosticismo e relativismo, que levaram a investigação filosófica a perder-se nas areias movediças dum cepticismo geral. E, mais recentemente, ganharam relevo diversas doutrinas que tendem a desvalorizar até mesmo aquelas verdades que o homem estava certo de ter alcançado. A legítima pluralidade de posições cedeu o lugar a um pluralismo indefinido, fundado no pressuposto de que todas as posições são equivalentes: trata-se de um dos sintomas mais difusos, no contexto actual, de desconfiança na verdade. E esta ressalva vale também para certas concepções de vida originárias do Oriente: é que negam à verdade o seu carácter exclusivo, ao partirem do pressuposto de que ela se manifesta de modo igual em doutrinas diversas ou mesmo contraditórias entre si. Neste horizonte, tudo fica reduzido a mera opinião. Dá a impressão de um movimento ondulatório: enquanto, por um lado, a razão filosófica conseguiu avançar pela estrada que a torna cada vez mais atenta à existência humana e às suas formas de expressão, por outro tende a desenvolver considerações existenciais, hermenêuticas ou linguísticas, que prescindem da questão radical relativa à verdade da vida pessoal, do ser e de Deus. Como consequência, despontaram, não só em alguns filósofos mas no homem contemporâneo em geral, atitudes de desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos cognoscitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se de verdades parciais e provisórias, deixando de tentar pôr as perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e social. Em suma, esmoreceu a esperança de se poder receber da filosofia respostas definitivas a tais questões.
6. Credenciada pelo facto de ser depositária da revelação de Jesus Cristo, a Igreja deseja reafirmar a necessidade da reflexão sobre a verdade. Foi por este motivo que decidi dirigir-me a vós, venerados Irmãos no Episcopado, com quem partilho a missão de anunciar « abertamente a verdade » (2 Cor 4, 2), e dirigir-me também aos teólogos e filósofos a quem compete o dever de investigar os diversos aspectos da verdade, e ainda a quantos andam à procura duma resposta, para comunicar algumas reflexões sobre o caminho que conduz à verdadeira sabedoria, a fim de que todo aquele que tiver no coração o amor por ela possa tomar a estrada certa para a alcançar, e nela encontrar repouso para a sua fadiga e também satisfação espiritual.
Tomo esta iniciativa impelido, antes de mais, pela certeza de que os Bispos, como assinala o Concílio Vaticano II, são « testemunhas da verdade divina e católica » 3. Por isso, testemunhar a verdade é um encargo que nos foi confiado a nós, os Bispos; não podemos renunciar a ele, sem faltar ao ministério que recebemos. Reafirmando a verdade da fé, podemos restituir ao homem de hoje uma genuína confiança nas suas capacidades cognoscitivas e oferecer à filosofia um estímulo para poder recuperar e promover a sua plena dignidade.
Há um segundo motivo que me induz a escrever estas reflexões Na carta encíclica Veritatis splendor, chamei a atenção para « algumas verdades fundamentais da doutrina católica que, no contexto actual, correm o risco de serem deformadas ou negadas ». 4 Com este novo documento, desejo continuar aquela reflexão, concentrando a atenção precisamente sobre o tema da verdade e sobre o seu fundamento em relação com a . De facto, não se pode negar que este período, de mudanças rápidas e complexas, deixa sobretudo os jovens, a quem pertence e de quem depende o futuro, na sensação de estarem privados de pontos de referência autênticos. A necessidade de um alicerce sobre o qual construir a existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente, principalmente quando se é obrigado a constatar o carácter fragmentário de propostas que elevam o efémero ao nível de valor, iludindo assim a possibilidade de se alcançar o verdadeiro sentido da existência. Deste modo, muitos arrastam a sua vida quase até à borda do precipício, sem saber o que os espera. Isto depende também do facto de, às vezes, quem era chamado por vocação a exprimir em formas culturais o fruto da sua reflexão, ter desviado o olhar da verdade, preferindo o sucesso imediato ao esforço duma paciente investigação sobre aquilo que merece ser vivido. A filosofia, que tem a grande responsabilidade de formar o pensamento e a cultura através do apelo perene à busca da verdade, deve recuperar vigorosamente a sua vocação originária. É por isso que senti a necessidade e o dever de intervir sobre este tema, para que, no limiar do terceiro milénio da era cristã, a humanidade tome consciência mais clara dos grandes recursos que lhe foram concedidos, e se empenhe com renovada coragem no cumprimento do plano de salvação, no qual está inserida a sua história.
Fonte: CARTA ENCÍCLICA (FIDES ET RATIO) - JOÃO PAULO II - SOBRE AS RELAÇÕES 
ENTRE FÉ E RAZÃO – (Acesso: 04 de novembro 2014 -www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html

terça-feira, 7 de outubro de 2014

QUARTO BIMESTRE:

DISCIPLINA SOCIOLOGIA - ATIVIDADE PARA AS  SEGUNDAS E TERCEIRAS SÉRIES DO ENSINO MÉDIO
1) Leitura do texto sobre Max Weber: Tipos de Dominação
2) Ao ler o texto procure estar atento:
a) para compreender e retirar os conceitos que são abordados.
b) para destacar a questões levantadas ao longo do texto.

 SOCIOLOGIA - ATIVIDADE EXCLUSIVA DAS TERCEIRAS SÉRIES:
a) Assistir ao vídeo sobre Clássicos da Sociologia - Sociólogo: E. Durkheim- endereço eletrônico:  https://www.youtube.com/watch?v=SMaxxNEqk7U - Tempo do vídeo 17 minutos
b) Procurar captar as  seguintes questões:
 1)  Qual o objeto de estudo da sociologia na visão de Durkheim
 2)  O que é Fato Social? Suas características.
 3)  Segundo o vídeo  qual o papel/função da Escola?
 4)  Destaque outras questões (conceitos) abordadas no vídeo referente ao pensamento de Dhurkheim.
                                                                   
                                                                         
                                                                           TEXTO


                                            OS TIPOS DE DOMINAÇÃO EM MAX WEBER                              
                                                                                                       (Paulo César de Carvalho Jacó)
                                                          
            É possível encontrar os conceitos centrais da sociologia política de Max Weber (1864-1920), basicamente, em duas de suas obras: Economia e sociedade (póstuma) e de forma sintética, na conferência de 1919 - “A política como vocação” (SELL, 2013).  
            Os estudos de Weber (na obra: Economia e sociedade) apontam para a noção de Política que é vista como “[...] o conjunto dos esforços feitos com vistas a participar do poder ou influenciar a divisão do poder, seja entre Estados, seja no interior do próprio Estado” (WEBER, 1967, p.56 apud SELL, 2013, p.136). Pelo visto, duas ideias são centrais na definição anterior: Poder e Estado. A primeira é compreendida como: “Toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistência, seja qual for o fundamento dessa probabilidade” (WEBER, 2000, p. 33).  A noção de Estado, pela perspectiva de Weber, deve ser compreendida procurando desvelar os meios utilizados por este para impor suas decisões (SELL, 2013). O Estado Moderno, segundo Weber, nasce da tentativa de centralização dos poderes: do exército, da administração financeira, do poder jurídico, da burocracia. Tal feito, só é possível, através da unificação dos territórios e limitação do poder dos senhores feudais (SELL, 2013). A dominação (autoridade) estabelecida no Estado Moderno é vista como: “[...] a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo, entre determinadas pessoas indicáveis” (WEBER, 2000, p. 33). No cotidiano, a dominação  é  multifacetária e efetiva-se através de costumes e crenças, pois carece de legitimidade para seu exercício. Segundo Weber (2000) uma situação de poder autoritário não constitui-se em dominação à qual são necessários instrumentos que a legitimam e certo grau de concordância (aceitabilidade) dos dominados.  Associada à dominação surge a ideia de disciplina, abordada como a “probabilidade de encontrar obediência[1] pronta, automática a uma ordem, entre uma pluralidade indicável de pessoas, em virtude de atividades treinadas (WEBER, 2000, p. 33). A disciplina inclui treino na obediência, sem crítica e nem resistência. Tais definições  nos conduzem, sem muito esforço, ao espaço da educação, especificamente das escolas e, perguntamos: Aluno disciplinado é aluno treinado? Caso a escola seja espaço onde haja alguma forma de dominação – quem domina quem? Quais os instrumentos de treino? Quais os mecanismos que geram a obediência? Em tal espaço (escola) apenas os alunos obedecem?
             A sociedade moderna, sob a égide de um Estado centralizador de diversas  formas de poder, burocratizado e institucionalizado, encontra-se em disputa pelos agentes sociais que buscam o monopólio dos instrumentos de poder com o objetivo de ampliar, preservar e perpetuar a dominação estabelecida.
            Pelo apresentado até aqui, podemos dizer que o Estado moderno é configurado, ou caracterizado, pelo monopólio do poder, sob certo controle, desenvolve uma política de centralização, portanto, de dominação de todas as instancias produtivas a partir de distintas formas e instrumentos institucionalizados.    
            Numa constelação de conceitos que compõe o pensamento de Weber no campo da sociologia política e reluzindo com mais intensidade, desponta a noção de Dominação descrita no livro Economia e Sociedade.  À pergunta - o que busca Weber? Podemos responder: compreender os fundamentos que tornam legítima a autoridade e as razões internas que justificam a dominação (SELL, 2013).  Tais questões são provocativas em todas as esferas da vida, pois possibilitam problematizar a ordem estabelecida nas mais distintas instancias do cotidiano: política, econômica, escolar, familiar... . Diante das questões apontadas é oportuno perguntar: O que torna legítima a autoridade dos pais sobre  sua prole? A autoridade do professor sobre seus alunos? Do governante sobre seu povo?
               Weber estabelece uma tipologia da dominação ao mostrar a pessoalidade e impessoalidade do poder classificando-a em três: a) dominação legal; b) dominação tradicional; c) dominação carismática.
              A dominação legal é de caráter racional e acontece de forma impessoal. Aqui há uma crença na legitimidade da lei que instituiu as pessoas para dominar. Esta forma de dominação tem todo um aparato institucional que pode vir acompanhado, ou não, de um quadro administrativo burocrático. Nessa perspectiva, a burocracia é uma forma de racionalização da vida, realizada num sistema capitalista o qual permite a quem detêm tais meios, perpetuar sua dominação. Aqui a questão é “quem domina o aparelho burocrático existente”? A burocratização moderna tem suas especificidades e alcances: jurídico - ao estabelecer e controlar normas; hierarquização dos postos que permite o controle de um pelo outro, segundo tal ordem de poder; a criação de documentos como forma de administração; controle do tempo nas repartições de trabalho (WEBER, 1982 apud SELL, 2013). Quando pensamos no espaço da escola vemos a atividade do professor dominada por um extenso processo burocrático e administrativo (que indica controle). O Estado controla o trabalho (intelectual) docente por meio dessa racionalização da atividade pedagógica. Contudo, a questão é saber se o controle, numa perspectiva teleológica, é algo bom ou ruim do ponto de vista político, social ou mesmo ético.
               Dominação tradicional: aqui o poder é pessoal e necessariamente não tem um quadro administrativo-burocrático. Observa-se tal formato onde há a crença, quase que sagrada, nas ordens e na figura dos senhores. Quando ela é realizada por um membro mais velho da sociedade tem-se uma gerontocracia. Na existência de um quadro administrativo pode configurar, por exemplo, o patrimonialismo (direito de mando de um senhor). No modelo de dominação legal com quadro administrativo a posição de senhor é de exclusividade do dirigente através de apropriação, eleição ou designação (WEBER, 2000).
              Chegamos à dominação carismática: centrada nas qualidades pessoais de alguém, de um carisma, qualidades mágicas, ou mesmo vistas como sobrenaturais. Parece-nos que por parte de quem dominada há também a crença de que suas habilidades (poderes) são de ordem extracotidiana. Poder-se-ia dizer que a autoridade do carismático é pela “graça de Deus.” Weber também traz o problema da rotinização do carisma, fenômeno ocorrido quando um poder torna-se permanente.
Referência:
SELL, Carlos Eduardo. Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber. 5. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
WEBER, Max. Os Tipos de dominação. In WEBER, Max. Economia e sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Brasil: UNB, 4ª ed.; 2012, p. 139-167.





[1] Entendida como conteúdo da ordem e em nome dela  tornada a máxima de sua conduta (WEBER, 2000)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

DISCIPLINA: SOCIOLOGIA 
O TEXTO ABAIXO É SOBRE A NOÇÃO DE SOCIEDADE LÍQUIDA DE Z. BAUMAN

A liquidez do homem pós-moderno
Para Bauman, os valores da sociedade ocidental cada vez mais diluídos cerceiam a tolerância e o relacionamento

POR RENATO NUNES BITTENCOURT

Talvez nunca a humanidade tenha alcançado um estado de consciência acerca da dor e da sua própria finitude de modo tão elevado como na cultura contemporânea. Buscamos de todas as maneiras, meios de escaparmos das experiências dolorosas e tristes, vislumbrando acima de tudo a aquisição de um utópico estado de prazer eterno. Com efeito, os avanços tecnológicos nos proporcionaram em muitas circunstâncias um aprimoramento da qualidade de vida, favorecendo assim a dinamização do tempo para o seu uso em atividades mais aprazíveis. Porém, será que sabemos fazer uso adequado do tempo livre que dispomos para a realização de atividades que efetivamente ampliam a nossa potência de agir, tornando-nos mais criativos e solidários? Talvez não, e esse é o paradoxo inscrito no seio de nossa sociedade tecnologizada. Simultaneamente ao fato de termos obtido um considerável desenvolvimento material, ao mesmo tempo nos diluímos enquanto pessoas, pois pretendemos adequar todas as nossas interações apenas àquilo que de alguma maneira nos proporcionará vantagens imediatas.
A era em que vivemos é a era da liquidez, esse é o diagnóstico feito por Zygmunt Bauman, pensador polonês de grande vigor intelectual, dono de um estilo que associa na sua escrita clareza argumentativa profundidade e beleza retórica. De acordo com a análise nevrálgica de Bauman, os valores que a nossa cultura ocidental até então estabelecera como os mais nobres e elevados cada vez mais diluem-se como a água que se escorre das nossas mãos, sem que sejamos capazes de detê-la. A vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante. Bauman constata que a vida na sociedade "líquido-moderna" é uma versão perniciosa da dança das cadeiras. O prêmio nessa competição é a garantia temporária de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo [Vida Líquida, p. 10].

"Tolerar é injurioso", dizia escritor, cientista e filósofo Johann von Goethe durante o Iluminismo, época na qual o pensamento da tolerância produziu uma espécie de "religião da razão". No século XIX, Goethe alerta para o fato de que a tolerância seria apenas uma atitude transitória que deve levar ao reconhecimento do outro
Esse processo simbólico de liquefação dos valores mais elevados da condição humana manifesta- se em diversas perspectivas de nossa vida em sociedade, tendo como característica comum a incapacidade de nos relacionarmos com a pessoa do "outro" de maneira plena, compreendendo assim a sua subjetividade e singularidade. Tendemos sempre a valorar a figura do "outro" tal como ela se apresenta diante de nós e não nela mesma, decorrendo daí os preconceitos, as diversas expressões de intolerâncias, em suma, a incompreensão da subjetividade do "outro", que, infelizmente, progressivamente perde a sua própria natureza humana, singular, única, para se tornar uma mera coisa com a qual nos relacionamos de maneira fria, egoísta e superficial.
Um dos sintomas mais evidentes da "sociedade líquida" em que vivemos é a intolerância da massa social diante de tudo aquilo que de alguma maneira se considera como desvio de conduta ou que destoa dos padrões vigentes. Todo tipo de comportamento ou modo de ser que supostamente não se coaduna com nossos princípios particulares torna-se digno de nosso mais terrível desprezo, pois no fundo queremos ver estampado no rosto do "outro" um pouco daquilo que nós mesmos somos. Tudo aquilo que se expressa como "diferente" diante de nossos olhos é imputado enfaticamente como "extravagante", merecendo assim a nossa reprovação imediata e o convite ostensivo a adequar-se aos nossos conservadores parâmetros axiológicos. Caso a resposta do "outro" diante de nossa exortação seja negativa, nos considerados no pleno direito de desprezar a expressão da diferença. Esta é a lógica excludente da neurótica sociedade pós-moderna, despreparada para interagir com a diversidade de perspectivas, pois para o indivíduo acomodado nos seus valores conservadores, é muito mais fácil tentar modificar o outro do que a si mesmo. Sempre a figura do "outro" é a culpada pela minha insegurança e derrota. É através desse tipo de ponderação que surge o espírito de tensão diante das ameaças terroristas, pois os governantes, interessados na manutenção do domínio político sobre a massa social, elegem como figura inimiga o outro, o intruso do país, tal como vemos atualmente na tendência absurda de considerar todo muçulmano como um terrorista em potencial. Os medos nos estimulam a assumir uma ação defensiva. Quando isso ocorre, a ação defensiva confere proximidade e tangibilidade ao medo, segundo a análise de Bauman (Tempos Líquidos, p. 15).
A liquefação dos valores da era pós-moderna manifesta como seu problema por excelência o projeto de suprimir a consciência de alteridade, a capacidade de compreendermos o outro na sua própria pluralidade de significados e vivências. Suprimindo a alteridade, cada vez mais empobrecemos as nossas relações interpessoais, pois reduzimos nossas experiências existenciais apenas àquilo que julgamos conveniente segundo nossos escusos critérios de avaliação. Um agravante a ser inserido nessas considerações é que dissimulamos essa incapacidade de convivência com a diferença através da criação de preceitos "politicamente corretos", pois muitas vezes demonstrarmos publicamente adequação irrestrita a esses princípios de respeitabilidade social, mas intimamente permanecemos racistas, machistas e intolerantes diante do "outro", ou ainda buscamos perseverar no nobre propósito de aceitar as diferenças, mas no primeiro desagravo que sofremos da parte do "outro", lançamos-lhes as nossas violentas invectivas. Desenvolvemos o crônico medo de sermos deixados para trás, de sermos excluídos (Medo Líquido, p. 29). Tememos assim a proximidade do outro, pois este, na visão distorcida que dele fazemos, traz sempre consigo uma sombra ameaçadora, capaz de desestabilizar o frágil suporte de nossa organização familiar, de nossa atividade profissional e de nossa sociedade como um todo. Sendo o outro proclamado como o verdadeiro culpado por todo infortúnio da vida corriqueira, tudo aquilo que é feito para minar a sua dita influência maléfica sobre nós se torna válido. O agravante de tal situação é que muitas vezes colocamos o outro em situações vexatórias ou em condições vitais degradantes, e ainda por cima esperamos dele respostas positivas.
Desenvolvemos o crônico medo de sermos deixados para trás,
de sermos excluídos. Tememos assim a proximidade do outro
Nesse mundo marcado pelo alto índice de violência e pela necessidade de aceleração das nossas atividades cotidianas, seja na profissão ou nos estudos, optamos por viver encerrados e supostamente protegidos por muros e grades pretensamente invioláveis. Da mesma maneira, queremos distância da diferença, pois consideramos que somente o igual é bom, belo e útil para nós. Podemos constatar que a própria estética das grandes metrópoles modificou- se de forma grotesca nas últimas décadas. Os casarões antigos até podiam ser envolvidos por grades, mas estas eram constituídas de tal forma que permitia ao observador externo contemplar a beleza do imóvel, tratando-se muito mais de uma delimitação territorial do espaço ocupado. Atualmente, ocorreu uma mudança radical no modo como são elaboradas as estruturas espaciais das casas e prédios, evidenciando uma busca insana por segurança.


A liquidez do homem pós-moderno
Para Bauman, os valores da sociedade ocidental cada vez mais diluídos cerceiam a tolerância e o relacionamento

POR RENATO NUNES BITTENCOURT

A necessidade mais profunda do ser humano é a de superar seu
estado de separação em relação ao outro, deixando assim a prisão de sua solidão
Ora, como a busca por segurança pode ser algo insano? De fato, parece uma ideia paradoxal, mas é tal comportamento que impera na nossa sociedade pós-moderna. De tanto vislumbrarmos a criação de mecanismos infalíveis de defesa perante o outro, o desconhecido, acabamos por desenvolver afetos reativos, medos, ou seja, a própria insegurança pessoal diante do mundo que nos circunda. O mal pode estar oculto em qualquer lugar, não se pode confiar em ninguém. Conforme salienta Bauman, grande parte do capital comercial pode ser e é acumulado a partir da insegurança e do medo (Tempos Líquidos, p. 18).

Nos sentimos seguros apenas quando somos vigiados a cada instante e se um grande muro de concreto nos isola da realidade externa. Permanece sempre uma atmosfera de insegurança no ar, pois, apesar de todos os recursos técnicos para nos proteger que possuímos, fica ainda essa tensão diante das ameaças externas
Uma nova estética da segurança modela todos os tipos de construção e impõe uma nova lógica de vigilância e distância. Se uma casa ou um prédio público não é ornado com grades nem possui câmeras de monitoramento, eles não nos inspiram a menor confiança. Somente nos sentimos seguros se somos vigiados a cada instante e se um grande muro de concreto nos isola da realidade externa. Permanece sempre uma atmosfera de insegurança no ar, pois, apesar de todos os recursos técnicos para nos proteger que possuímos, fica ainda essa tensão diante das ameaças externas. Talvez mesmo que permanecêssemos numa redoma hermeticamente fechada, a dúvida diante do desconhecido ainda nos afetaria. Como é possível vivermos assim?
As práticas amorosas também refletem essa tendência de esvaziamento da interatividade humana, pois a nova ordem é apenas usufruir aquilo que o outro nos oferece, para que possamos em seguida descartá-lo sem qualquer peso na consciência. O complexo de Don Juan vigente na cultura mega-hedonista em que vivemos, longe de significar uma plena afirmação da condição amorosa e da própria sexualidade de uma pessoa, na verdade manifesta a sua pobreza existencial e a sua incapacidade de satisfazer-se plenamente através da sua relação sentimental com o outro. Podemos dizer que a relação amorosa genuína desvela o espírito de alteridade entre duas pessoas, que se compreendem e se valorizam enquanto expressões subjetivas singulares. A necessidade mais profunda do ser humano é a de superar seu estado de separação em relação ao outro, deixando assim a prisão de sua solidão. Erich Fromm, que exerceu notável influência sobre Bauman, diz que "se eu amo o outro, sinto-me um só com ele, mas com ele como ele é, e não na medida em que preciso dele como objeto para meu uso" [A arte de Amar, p, 35].
Já as práticas líquidas do "amor" representam uma transposição da lógica consumista para o âmbito das relações humanas, pois o propósito maior é obter o máximo possível de contatos sexuais, em detrimento da qualidade e da profundidade das vivências. Nesse processo de degradação da experiência amorosa, o mais importante é aumentar cada vez mais o catálogo de nomes das "conquistas", tudo em nome da soma de prazeres sensoriais, que, todavia, nunca satisfazem os desejos do fragmentado homem da pós-modernidade. Um desejo, sendo realizado, não gera um estado de satisfação duradouro na afetividade do indivíduo, levando-o então a correr atrás de novas conquistas, que servem de estímulos fortes para a manutenção de sua frágil sanidade psíquica. Esse processo de busca desenfreada por novas conquistas ocorre muitas vezes por uma necessidade narcisista do indivíduo adquirir reconhecimento diante dos seus "amigos" e de sua própria sociedade, caracterizando assim a falsa imagem de que o homem pretensamente bem sucedido sexualmente é feliz.
O AMOR PLATÔNICO
Os gregos antigos dizem que o ser humano experimenta, basicamente, três formas de amor: Eros, que está centrado na dependência dos parceiros; Filos , que se baseia na segurança; Ágape, o amor incondicional. O amor é temática comum dentre os filósofos gregos. Para Platão, o amor era o desejo de algo que não se possui. Contudo, o termo amor platônico, que designa um amor ideal, ou algo impossível de realizar, não espelha uma interpretação da Filosofia de Platão, que trata de uma realidade essencial.
Do momento em que o bem-estar genuíno proporcionado pelo amor, para ser alcançado, requer essa interação sincera entre duas partes distintas, a tendência egoísta de utilizar-se o outro como meio de obtenção de prazer conduz a um processo de reificação da condição humana, diluída na sua própria evasão axiológica. Isso não significa uma apologia da existência de um amor eterno, mas sim a necessidade de que o sujeito contemporâneo possa participar de um relacionamento movido pelo propósito de, mediante a capacidade de proporcionar bons afetos ao seu parceiro amoroso, recolher a partir daí a sua felicidade. O tipo egoísta é incapaz de amar o outro, mas tampouco é capaz de amar a si mesmo. O que o egoísta supostamente venera em si mesmo é a máscara social que ele utiliza como instrumento de fuga de si mesmo, de sua própria pobreza existencial. Para Bauman, "Nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante" (Amor Líquido, p. 65).


A liquidez do homem pós-moderno
Para Bauman, os valores da sociedade ocidental cada vez mais diluídos cerceiam a tolerância e o relacionamento

POR RENATO NUNES BITTENCOURT

Bauman define as "práticas amorosas" virtuais e os relacionamentos
afetivos marcados pela efemeridade como "relacionamento de bolso"

Para Erich Fromm (1900-1980) existem vários tipos de amor que podem ser classificados, como o amor romântico, o amor neurótico, o amor materno e paterno e o amor de Deus. Mas, segundo o psicanalista, a capacidade de amar só se adquire plenamente na madurez pessoal
Talvez o fato mais curioso da condição amorosa da atualidade é que, apesar de toda liberdade sexual que conquistamos, tal fato não favoreceu de modo algum o enriquecimento das nossas relações amorosas; pelo contrário, o indivíduo contemporâneo em nenhum momento demonstra superioridade nas disposições amorosas do que a humanidade medieval ou antiga. A magia romântica do amor dissolveu- se na velocidade da vida dinâmica em que vivemos na vertiginosa era da alta tecnologia. Por temermos a proximidade com o outro, preferimos então abrir mão das relações amorosas concretas para adentramos na dimensão das relações virtuais. Conforme os dizeres de Bauman, "é preciso diluir as relações para que possamos consumi-las" (Amor Líquido, p. 10).
A grande vantagem do amor mediatizado pela tela de computador é que assim evitamos a intimidade invejável com a presença do parceiro. Se porventura essa relação torna-se enfadonha, basta apertar algum botão e excluir para sempre o contato dessa pessoa da lista. O mundo virtual, que deveria proporcionar a aproximação entre os indivíduos, acaba então motivando ainda mais a ruptura interpessoal, com o agravante de que o amor virtual se trata de uma ilusão afetiva, ainda que supostamente prazerosa para aquele que dela se utiliza. Os relacionamentos virtuais são assépticos e descartáveis, e não exigem o compromisso efetivo de nenhuma das partes pretensamente envolvidas. Bauman define tanto as "práticas amorosas" virtuais como os relacionamentos afetivos marcados pelo gosto pela efemeridade pelo termo "relacionamento de bolso", pois podemos dispor deles quando necessário e depois tornar a guardá-los (Amor Líquido, p. 10).

TEMPOS LÍQUIDOS
"A violenta destruição da vida e da propriedade inerente à guerra, o esforço e o alarme contínuos resultantes de um estado de perigo constante, vão compelir as nações mais vinculadas à liberdade a recorrerem, para seu repouso e segurança, a instituições cuja tendência é destruir seus direitos civis e políticos. Para serem mais seguras, elas acabam se dispondo a correr o risco de serem menos livres. Agora essa profecia está se tornando realidade. Uma vez investido sobre o mundo humano, o medo adquire um ímpeto e uma lógica de desenvolvimento próprio e precisa de poucos cuidados e praticamente nenhum investimento adicional para crescer e se espalhar - irrefreavelmente. Nas palavras de David L.Altheide, o principal não é o medo do perigo, mas aquilo no qual esse medo pode se desdobrar, o que ele se torna. A vida social se altera quando as pessoas vivem atrás de muros, contratam seguranças, dirigem veículos blindados, portam porretes e revólveres, e frequentam aulas de artes marciais. O problema é que essas atividades reafirmam e ajudam a produzir o senso de desordem que nossas ações buscam evitar.
Os medos nos estimulam a assumir uma ação defensiva. Quando isso ocorre, a ação defensiva confere proximidade e tangibilidade ao medo. São nossas respostas que reclassificam as premonições sombrias como realidade diária, dando corpo à palavra. O medo agora se estabeleceu, saturando nossas rotinas cotidianas; praticamente não precisa de outros estímulos exteriores, já que as ações que estimula, dia após dia, fornecem toda a motivação e toda a energia de que ele necessita para se reproduzir. Entre os mecanismos que buscam aproximar- se do modelo de sonhos do moto-perpétuo, a auto-reprodução do emaranhado do medo e das ações inspiradas por esse sentimento está perto de reclamar uma posição de destaque. É como se os nossos medos tivessem ganhado a capacidade de se autoperpetuar e se autofortalecer; como se tivessem adquirido um ímpeto próprio - e pudessem continuar crescendo com base unicamente nos seus próprios recursos. [...]
Tempos Líquidos, p.15, Zygmunt Bauman, da Jorge Zahar Editor
Cumpre dizer que a própria mídia é uma grande incentivadora dessa tendência dissolvente dos valores elevados da cultura humana, pois continuamente ela despeja na massa social a idéia de que está na moda o ato de se "ficar" com várias pessoas sem que mantenha compromisso duradouro com ninguém, uma vez que assim, segundo os critérios dessa lógica "mega-hedonista", amplia-se o número de experiências afetivas. Troca-se de parceiro como se troca de roupa, e assim a lógica do descarte pessoal impera na liquidez humana de nossa contemporaneidade.

Segundo Bauman, os valores que a nossa cultura ocidental até então estabelecera como os mais nobres e elevados cada vez mais diluem-se como a água que escorre das nossas mãos, sem que sejamos capazes de detê-la


Quando alguém diz que "fica" com várias pessoas, será que de fato essa pessoa "fica" com alguém? Aliás, será que podemos dizer que a pessoa imersa na liquefação da pós-modernidade é capaz de ficar consigo mesma, isto é, adquirir autoconsciência, interiorizar- se, compreender o seu próprio potencial criativo? A mídia, ao invés de motivar na coletividade social a busca efetiva por mais cultura, utiliza- se do potencial consumidor do indivíduo para continuar exercendo o seu poder controlador sobre as massas. Não é a toa que os grandes heróis da mídia caracterizam- se geralmente pela ausência de senso crítico, pois a eles cabe apenas representar o papel de chamariz de sedução do grande público, daí decorrendo a necessidade de se apresentarem como corpos fortes, aparentemente saudáveis.
Os apontamentos de Bauman sobre a vertiginosa liquefação da condição humana nos servem de alerta para o rumo que escolhemos seguir nesse momento de grandes inovações científicas e tecnológicas. A exposição do declínio das relações humanas não significa, nessas condições, um olhar pessimista sobre a nossa cultura contemporânea, mas uma incitação por mudanças, a fim de que nossas vidas se enriqueçam efetivamente, não mediante aspectos quantitativos e materiais, mas pelo aprimoramento de nosso modo de se relacionar com o mundo externo e com a figura do outro. Certamente assim nos tornaremos pessoas consistentes, concretas, com algo de belo e criativo a transmitir para os nossos interlocutores.

REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos laços humanos. Trad. de
Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
_________. Medo Líquido. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
_________. Tempos Líquidos. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2007.
________. Vida Líquida. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
FROMM, Erich. A Arte de Amar. Trad. de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Acesso: 18 de agosto de 2014


Contextualização:
Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês nascido em 1925, que iniciou carreira na Universidade de Varsóvia. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais Modernidade Líquida, a obra escolhida para este resumo crítico.
Modernidade Líquida foi publicada próximo ao ano 2000, na propalada virada do século, sendo efetivamente lançado em 2001. Naquela época o mundo estava em pânico, pois havia diversas previsões de panes tecnológicos em programas e computadores espalhados pelo mundo, o famoso “bug do milênio”, ou seja, as máquinas e aplicativos computacionais estavam escritos e preparados para executar até 1999, o que exigia muitas adaptações para que não houvesse um caos tecnológico nos diversos setores e segmento da vida moderna. Antes disso, durante a década de 1990, haviam ocorrido crises econômicas creditadas à globalização crescente, além de guerras como a do Golfo e nos Bálcãs. A Internet disseminava um conceito de universo social, criando tribos sociais que iam desde o consumismo desenfreado até a militância de causas ambientalistas. O título da obra decorre da modernidade da sociedade que avança em vários sentidos, porém, questionável em suas atitudes e o seu contexto enquanto sociedade. A liquidez, a qual Bauman propõe vem do fato que os líquidos não têm uma forma, ou seja, são fluídos que se moldam conforme o recipiente nos quais estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e precisam sofrer uma tensão de forças para moldar-se a novas formas. Os fluídos movem-se facilmente, quer dizer: simplesmente “fluem”, “escorrem entre os dedos”, “transbordam”, “vazam”, “preenchem vazios com leveza e fluidez”. Muitas vezes não são facilmente contidos, como por exemplo, em uma hidrelétrica ou num túnel de metro, lugar que se pode observar as goteiras, as rachaduras ou uma pequena gota numa fenda mínima. Os líquidos penetram nos lugares, nas pessoas, contornam o todo, vão e vem ao sabor das ondas do mar. A obra dedica-se a análise dessa liquidez que permeia cinco tópicos básicos: a emancipação, a individualidade, o tempo e espaço, o trabalho e a comunidade.
(Ana Fátima de Brito, Claudia Simone Vieira – Fonte: http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9917&revista_caderno=23 – Acesso 18 de agosto de 2014)


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Este é apenas um texto que pode ajudar-nos a pensar a ideia de Sociedade nas aulas de Sociologia.

Disciplina: SOCIOLOGIA

PONTOS DE VISTA: SOCIEDADE

A definição mais geral de sociedade pode ser resumida como um sistema de interações humanas culturalmente padronizadas. Assim, e sem contradição com a definição anterior, sociedade é um sistema de símbolos, valores e normas, como também é um sistema de posições e papéis.
Uma sociedade é uma rede de relacionamentos sociais, podendo ser ainda um sistema institucional, por exemplo, sociedade anônima, sociedade civil, sociedade artística etc. A origem da palavra sociedade vem do latim societas, que significa associação amistosa com outros.
O termo sociedade é comumente usado para o coletivo de cidadãos de um país, governados por instituições nacionais que aspiram ao bem-estar dessa coletividade. Todavia, a sociedade não é um mero conjunto de indivíduos vivendo juntos em um determinado lugar, é também a existência de uma organização social, de instituições e leis que regem a vida dos indivíduos e suas relações mútuas. Há também alguns pensadores cujo debate insiste em reforçar a oposição entre indivíduo e sociedade, reduzindo, com frequência, ao conflito entre o genético e o social ou cultural.
Durkheim, Marx e Weber conceituaram de maneiras diferentes a definição de sociedade. Cada um definiu a constituição da sociedade a partir do papel político, social ou econômico do indivíduo.
Para Émile Durkheim, o homem é coagido a seguir determinadas regras em cada sociedade, o qual chamou de fatos sociais, que são regras exteriores e anteriores ao indivíduo e que controlam sua ação perante aos outros membros da sociedade. Fato social é a coerção do indivíduo, constrangido a seguir normas sociais que lhe são impostas desde seu nascimento e que não tem poder para modificar.
Em outras palavras, a sociedade é que controla as ações individuais, o individuo aprende a seguir normas que lhe são exteriores (não foram criadas por ele), apesar de ser autônomo em suas escolhas; porém essas escolhas estão dentro dos limites que a sociedade impõe, pois caso o indivíduo ultrapasse as fronteiras impostas será punido socialmente.
Para Karl Marx, a sociedade sendo heterogênea, é constituída por classes sociais que se mantêm por meio de ideologias dos que possuem o controle dos meios de produção, ou seja, as elites. Numa sociedade capitalista, o acúmulo de bens materiais é valorizado, enquanto que o bem-estar coletivo é secundário.
Numa sociedade dividida em classes, o trabalhador troca sua força de trabalho pelo salário, que é suficiente apenas para ele e sua família se manterem vivos, enquanto que o capitalista acumula capital (lucro), que é o símbolo maior de poder, de prestígio e status social.
A exploração do trabalhador se dá pela mais-valia, a produção é superior ao que recebe de salário, sendo o excedente da produção o lucro do capitalista, que é o proprietário dos meios de produção. Assim se concretiza a ideologia do capitalista: a dominação e a exploração do operário/trabalhador para obtenção do lucro.
Para Marx, falta ao trabalhador a consciência de classe para superar a ideologia dominante do capitalista e assim finalmente realizar a revolução, para se chegar ao socialismo.
Max Weber não tem uma teoria geral da sociedade concebida, sendo que está mais preocupado com o estudo das situações sociais concretas quanto à suas singularidades. Além da ação social, que é a expressão do comportamento externo do indivíduo, trabalha também o conceito de poder. A sociedade, para Weber, constitui um sistema de poder, que perpassa todos os níveis da sociedade, desde as relações de classe a governados e governantes, como nas relações cotidianas na família ou na empresa. O poder não decorre somente da riqueza e do prestígio, mas também de outras fontes, tais como: a tradição, o carisma ou o conhecimento técnico-racional.
O poder por meio da dominação tradicional se dá através do costume, quando já está naturalizada em uma cultura e, portanto, legitimada. Por exemplo, uma fonte de dominação tradicional é o poder dos pais sobre os filhos, do professor sobre o aluno etc.
O domínio do poder carismático ocorre quando um indivíduo submete os outros à sua vontade, por meio da admiração/fascinação e sem uso da violência. O líder carismático controla os demais pela sensação de proteção, que atrai as pessoas ao seu redor.
A ação racional com relação aos fins ocorre na burocracia, visando organizar as transações tanto comerciais como estatais, para que funcionem de forma eficiente. Por conta dessa organização, os indivíduos são submetidos às normas e diretrizes da empresa ou do Estado, para que o funcionamento dessas organizações seja eficiente e eficaz.

Fonte: http://www.brasilescola.com/sociologia/sociedade-1.htm
Orson Camargo
Colaborador Brasil Escola
Graduado em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP
Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

Acesso: 15 de agosto de 2014