Caros alunos(as),
Com o objetivo de possibilitar um espaço de reflexão filosófica, como já estabelecido ao longo dos bimestres, disponibilizamos um texto (Introdução) recortado da Encíclica FIDES ET RATIO (Entre a Fé a Razão) do papa João Paulo II. A escolha do texto se justifica pela retomada histórica que estamos realizando sobre a Filosofia ao longo de sua trajetória desde a Grécia Clássica - Chegamos a trabalhar a Filosofia Medieval na qual a grande questão era da possibilidade de conciliação entre Fé e Razão (da Patrística até a Escolástica). É importante que cada um posicione-se criticamente diante do texto tentando captar como uma instituição Religiosa (Igreja Católica) apresenta, ou elabora, o confronto entre Religião e Razão (Filosofia, especificamente falando). A dinâmica proposta é: leitura do texto (orientada pelo professor), discussão (orientada) nos pequenos grupos e depois no grande grupo.
TEXTO: "ENTRE FÉ E RAZÃO"
INTRODUÇÃO - «CONHECE-TE A TI MESMO »
1. Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível entrever um
caminho que, ao longo dos séculos, levou a humanidade a encontrar-se
progressivamente com a verdade e a confrontar-se com ela. É um caminho que se
realizou — nem podia ser de outro modo — no âmbito da autoconsciência pessoal:
quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo, tanto mais se conhece a si
mesmo na sua unicidade, ao mesmo tempo que nele se torna cada vez mais premente
a questão do sentido das coisas e da sua própria existência. O que chega a ser
objecto do nosso conhecimento, torna-se por isso mesmo parte da nossa vida. A
recomendação conhece-te a ti mesmo estava
esculpida no dintel do templo de Delfos, para testemunhar uma verdade basilar
que deve ser assumida como regra mínima de todo o homem que deseje
distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua qualificação de « homem »,
ou seja, enquanto «conhecedor de si mesmo ».
Aliás, basta um simples olhar pela história antiga para ver com
toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra
animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o
percurso da existência humana: Quem
sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá
depois desta vida? Estas
perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos
Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na
pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e
nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão
e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de
sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais
perguntas depende efectivamente a orientação que se imprime à existência.
2. A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, a este caminho de
pesquisa. Desde que recebeu, no Mistério Pascal, o dom da verdade última sobre
a vida do homem, ela fez-se peregrina pelas estradas do mundo, para anunciar
que Jesus Cristo é « o caminho, a verdade e a vida » (Jo 14, 6). De entre os vários
serviços que ela deve oferecer à humanidade, há um cuja responsabilidade lhe
cabe de modo absolutamente peculiar: é a diaconia
da verdade. 1 Por
um lado, esta missão torna a comunidade crente participante do esforço comum
que a humanidade realiza para alcançar a verdade, 2 e,
por outro, obriga-a a empenhar-se no anúncio das certezas adquiridas, ciente
todavia de que cada verdade alcançada é apenas mais uma etapa rumo àquela
verdade plena que se há--de manifestar na última revelação de Deus: « Hoje
vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face.
Hoje conheço de maneira imperfeita, então conhecerei exactamente » (1 Cor 13, 12).
3. Variados são os recursos que o homem possui para progredir no
conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência.
De entre eles sobressai a filosofia,
cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a
resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade. O termo
filosofia significa, segundo a etimologia grega, « amor à sabedoria ».
Efectivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se quando o homem
principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim. Ela
demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo da verdade pertence à
própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma
propriedade natural da sua razão, embora as respostas, que esta aos poucos vai
dando, se integrem num horizonte que evidencia a complementaridade das
diferentes culturas onde o homem vive.
A grande incidência que a filosofia teve na formação e
desenvolvimento das culturas do Ocidente não deve fazer-nos esquecer a
influência que a mesma exerceu também nos modos de conceber a existência
presentes no Oriente. Na realidade, cada povo possui a sua própria sabedoria
natural, que tende, como autêntica riqueza das culturas, a exprimir-se e a
maturar em formas propriamente filosóficas. Prova da verdade de tudo isto é a
existência duma forma basilar de conhecimento filosófico, que perdura até aos
nossos dias e que se pode constatar nos próprios postulados em que as várias
legislações nacionais e internacionais se inspiram para regular a vida social.
4. Deve-se assinalar, porém, que, por detrás dum único termo, se
escondem significados diferentes. Por isso, é necessária uma explicitação
preliminar. Impelido pelo desejo de descobrir a verdade última da existência, o
homem procura adquirir aqueles conhecimentos universais que lhe permitam uma
melhor compreensão de si mesmo e progredir na sua realização. Os conhecimentos
fundamentais nascem da maravilha que nele suscita a contemplação da
criação: o ser humano enche-se de encanto ao descobrir-se incluído no mundo e
relacionado com outros seres semelhantes, com quem partilha o destino. Parte
daqui o caminho que o levará, depois, à descoberta de horizontes de
conhecimentos sempre novos. Sem tal assombro, o homem tornar-se-ia repetitivo
e, pouco a pouco, incapaz de uma existência verdadeiramente pessoal.
A capacidade reflexiva própria do intelecto humano permite
elaborar, através da actividade filosófica, uma forma de pensamento rigoroso, e
assim construir, com coerência lógica entre as afirmações e coesão orgânica dos
conteúdos, um conhecimento sistemático. Graças a tal processo, alcançaram-se,
em contextos culturais diversos e em diferentes épocas históricas, resultados
que levaram à elaboração de verdadeiros sistemas de pensamento. Historicamente
isto gerou muitas vezes a tentação de identificar uma única corrente com o
pensamento filosófico inteiro. Mas, nestes casos, é claro que entra em jogo uma
certa «soberba filosófica », que pretende arvorar em leitura universal a
própria perspectiva e visão imperfeita. Na realidade, cada sistema filosófico, sempre no respeito da
sua integridade e livre de qualquer instrumentalização, deve reconhecer a
prioridade do pensar filosófico de que teve origem e ao
qual deve coerentemente servir.
Neste sentido, é possível, não obstante a mudança dos tempos e os
progressos do saber, reconhecer um núcleo de conhecimentos filosóficos, cuja
presença é constante na história do pensamento. Pense-se, só como exemplo, nos
princípios de não-contradição, finalidade, causalidade, e ainda na concepção da
pessoa como sujeito livre e inteligente, e na sua capacidade de conhecer Deus,
a verdade, o bem; pense-se, além disso, em algumas normas morais fundamentais
que geralmente são aceites por todos. Estes e outros temas indicam que, para
além das correntes de pensamento, existe um conjunto de conhecimentos, nos
quais é possível ver uma espécie de património espiritual da humanidade. É como
se nos encontrássemos perante uma filosofia
implícita, em virtude da qual cada um sente que possui estes princípios, embora
de forma genérica e não reflectida. Estes conhecimentos, precisamente porque
partilhados em certa medida por todos, deveriam constituir uma espécie de ponto
de referência para as diversas escolas filosóficas. Quando a razão consegue
intuir e formular os princípios primeiros e universais do ser, e deles deduzir
correcta e coerentemente conclusões de ordem lógica e deontológica, então
pode-se considerar uma razão recta, ou, como era chamada pelos antigos, orthòs logos, recta ratio.
5. A Igreja, por sua vez, não pode deixar de apreciar o esforço da
razão na consecução de objectivos que tornem cada vez mais digna a existência
pessoal. Na verdade, ela vê, na filosofia, o caminho para conhecer verdades
fundamentais relativas à existência do homem. Ao mesmo tempo, considera a
filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e
comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem ainda.
Na sequência de iniciativas análogas dos meus Predecessores,
desejo também eu debruçar-me sobre esta actividade peculiar da razão. Faço-o
movido pela constatação, sobretudo em nossos dias, de que a busca da verdade
última aparece muitas vezes ofuscada. A filosofia moderna possui, sem dúvida, o
grande mérito de ter concentrado a sua atenção sobre o homem. Partindo daí, uma
razão cheia de interrogativos levou por diante o seu desejo de conhecer sempre
mais ampla e profundamente. Desta forma, foram construídos sistemas de
pensamento complexos, que deram os seus frutos nos diversos âmbitos do
conhecimento, favorecendo o progresso da cultura e da história. A antropologia,
a lógica, as ciências da natureza, a história, a linguística, de algum modo
todo o universo do saber foi abarcado. Todavia, os resultados positivos
alcançados não devem levar a transcurar o facto de que essa mesma razão, porque
ocupada a investigar de maneira unilateral o homem como objecto, parece ter-se
esquecido de que este é sempre chamado a voltar-se também para uma realidade
que o transcende. Sem referência a esta, cada um fica ao sabor do livre
arbítrio, e a sua condição de pessoa acaba por ser avaliada com critérios
pragmáticos baseados essencialmente sobre o dado experimental, na errada
convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica. Foi assim que a razão, sob
o peso de tanto saber, em vez de exprimir melhor a tensão para a verdade,
curvou-se sobre si mesma, tornando-se incapaz, com o passar do tempo, de
levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser. A filosofia
moderna, esquecendo-se de orientar a sua pesquisa para o ser, concentrou a
própria investigação sobre o conhecimento humano. Em vez de se apoiar sobre a
capacidade que o homem tem de conhecer a verdade, preferiu sublinhar as suas
limitações e condicionalismos.
Daí provieram várias formas de agnosticismo e relativismo, que
levaram a investigação filosófica a perder-se nas areias movediças dum
cepticismo geral. E, mais recentemente, ganharam relevo diversas doutrinas que
tendem a desvalorizar até mesmo aquelas verdades que o homem estava certo de
ter alcançado. A legítima pluralidade de posições cedeu o lugar a um pluralismo
indefinido, fundado no pressuposto de que todas as posições são equivalentes:
trata-se de um dos sintomas mais difusos, no contexto actual, de desconfiança
na verdade. E esta ressalva vale também para certas concepções de vida
originárias do Oriente: é que negam à verdade o seu carácter exclusivo, ao
partirem do pressuposto de que ela se manifesta de modo igual em doutrinas
diversas ou mesmo contraditórias entre si. Neste horizonte, tudo fica reduzido
a mera opinião. Dá a impressão de um movimento ondulatório: enquanto, por um
lado, a razão filosófica conseguiu avançar pela estrada que a torna cada vez
mais atenta à existência humana e às suas formas de expressão, por outro tende
a desenvolver considerações existenciais, hermenêuticas ou linguísticas, que
prescindem da questão radical relativa à verdade da vida pessoal, do ser e de
Deus. Como consequência, despontaram, não só em alguns filósofos mas no homem
contemporâneo em geral, atitudes de desconfiança generalizada quanto aos
grandes recursos cognoscitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se
de verdades parciais e provisórias, deixando de tentar pôr as perguntas
radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e
social. Em suma, esmoreceu a esperança de se poder receber da filosofia
respostas definitivas a tais questões.
6. Credenciada pelo facto de ser depositária da revelação de Jesus
Cristo, a Igreja deseja reafirmar a necessidade da reflexão sobre a verdade.
Foi por este motivo que decidi dirigir-me a vós, venerados Irmãos no
Episcopado, com quem partilho a missão de anunciar « abertamente a verdade » (2
Cor 4, 2), e dirigir-me
também aos teólogos e filósofos a quem compete o dever de investigar os
diversos aspectos da verdade, e ainda a quantos andam à procura duma resposta,
para comunicar algumas reflexões sobre o caminho que conduz à verdadeira
sabedoria, a fim de que todo aquele que tiver no coração o amor por ela possa
tomar a estrada certa para a alcançar, e nela encontrar repouso para a sua
fadiga e também satisfação espiritual.
Tomo esta iniciativa impelido, antes de mais, pela certeza de que
os Bispos, como assinala o Concílio Vaticano II, são « testemunhas da verdade
divina e católica » 3. Por isso, testemunhar a verdade é um encargo
que nos foi confiado a nós, os Bispos; não podemos renunciar a ele, sem faltar
ao ministério que recebemos. Reafirmando a verdade da fé, podemos restituir ao
homem de hoje uma genuína confiança nas suas capacidades cognoscitivas e
oferecer à filosofia um estímulo para poder recuperar e promover a sua plena
dignidade.
Há um segundo motivo que me induz a escrever estas reflexões Na
carta encíclica Veritatis
splendor, chamei a atenção para « algumas verdades fundamentais da doutrina
católica que, no contexto actual, correm o risco de serem deformadas ou negadas
». 4 Com
este novo documento, desejo continuar aquela reflexão, concentrando a atenção
precisamente sobre o tema da verdade e sobre o seu fundamento em relação com a fé. De facto, não se pode negar
que este período, de mudanças rápidas e complexas, deixa sobretudo os jovens, a
quem pertence e de quem depende o futuro, na sensação de estarem privados de
pontos de referência autênticos. A necessidade de um alicerce sobre o qual
construir a existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente,
principalmente quando se é obrigado a constatar o carácter fragmentário de
propostas que elevam o efémero ao nível de valor, iludindo assim a
possibilidade de se alcançar o verdadeiro sentido da existência. Deste modo,
muitos arrastam a sua vida quase até à borda do precipício, sem saber o que os
espera. Isto depende também do facto de, às vezes, quem era chamado por vocação
a exprimir em formas culturais o fruto da sua reflexão, ter desviado o olhar da
verdade, preferindo o sucesso imediato ao esforço duma paciente investigação
sobre aquilo que merece ser vivido. A filosofia, que tem a grande
responsabilidade de formar o pensamento e a cultura através do apelo perene à
busca da verdade, deve recuperar vigorosamente a sua vocação originária. É por
isso que senti a necessidade e o dever de intervir sobre este tema, para que,
no limiar do terceiro milénio da era cristã, a humanidade tome consciência mais
clara dos grandes recursos que lhe foram concedidos, e se empenhe com renovada
coragem no cumprimento do plano de salvação, no qual está inserida a sua
história.
Fonte: CARTA ENCÍCLICA (FIDES ET RATIO) - JOÃO
PAULO II - SOBRE
AS RELAÇÕES
ENTRE FÉ E RAZÃO – (Acesso: 04 de novembro 2014 -www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html
ENTRE FÉ E RAZÃO – (Acesso: 04 de novembro 2014 -www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html