Paulo César de Carvalho Jacó
Intolerância Religiosa
Inquisição: instrumento coercitivo do poder ameaçado
Professora: Zilda M. G. Iokoi
UNIFEBE
Brusque, SC - 2004
Apresentação
Este trabalho é uma breve reflexão “intuitiva” sobre a Inquisição, a partir da análise da obra de Francisco Goya, (A corte da inquisição) pintor espanhol, nascido em 1746 e falecido em abril de 1828. A escolha da inquisição como tema de minha reflexão parte de outros trabalhos que tenho feito nas aulas de pós-graduação sobre a intolerância religiosa. Percebo que este tema é um profundo objeto de análise sobre a questão da intolerância, ainda, presente em nosso século. O fenômeno religioso institucionalizado tem sido objeto de análise por muitos teóricos: sociólogos, filósofo, historiadores. Procurei nesse trabalho apresentar uma contextualização histórica da inquisição que tem suas origens na Idade Média e fazendo uma ligação com a inquisição espanhola do século XIX e procurando refletir a intolerância institucional da Igreja Católica. Apresentei alguns relatos de pessoas que sofreram com a intolerância inquisitória descritas no livro de Frédéric Max, Prisioneiros da Inquisição. Há, também, uma breve biografia de Francisco Goya e ilustramos sua genialidade por meio de sua obra que é, como está dito acima, ponto de partida desse trabalho seguida de uma pequena reflexão interpretativa.
Há muitas inquisições modernas que não são somente meios coercitivos de instituições religiosas, mas também de governos e tantas outras instituições que tentam calar a voz da liberdade. Gostaria de expressar, também, meu desejo de liberdade e fazer uma prece à diferença num pequeno texto que diz assim:
“canta a vida, humanidade! Celebra o tom, celebra a cor e ouça o som de cada tambor. Branco ou preto, preto ou branco: não importa o tom, é viva a cor e ouça o som de cada tambor. Humanidade: muitos tambores, cores que pintam tons pelo ar. Humanidade: berço que acolhe vida em tons, é som pelo ar.”
O respeito à diferença é condição para se falar em tolerância. A tolerância só é possível na defesa da liberdade, como direito inalienável do ser humano. Quando todas as vozes se calarem, com certeza, as pedras falarão! O mundo precisa de profetas e poetas que por meio de sua arte e da coerência de vida denunciem as injustiças, a opressão, as forças opressoras institucionalizadas e legitimizadas pelas ideologias e anunciem a justiça, a solidariedade e o direito do ser humano de pensar e expressar seus sonhos, suas verdades e crenças.
História da inquisição
A inquisição tem suas raízes históricas na Idade Média, por volta do século XII na Europa. Como pioneiro dessas páginas de intolerância na história da Igreja Católica aparece Domingo de Gusman, criador da ordem dos frades pregadores já no século XIII.(cf. MAX, Frédéric. p.16) Nesse contexto aparece a primeira investida do monge para combater heresias.Domingos é considerado o primeiro inquisidor e como aquele que vai instituir o tribunal do Santo Ofício, para combater àqueles que abandonam a fé católica.(cf. MAX, Frédéric. p.16).
Parece-nos que as instituições para se manterem no poder, criam instrumentos de coerção que por meio das ideologias são disfarçados e aos poucos tornam-se legítimos meios de punir aqueles que fogem dos formatos ou das formatações dos que estão no poder. Em seu livro, o ser humano como um projeto infinito, Leonardo Boff diz que o ser humano é um ser de “protest-ação”. O ser humano é muito mais que qualquer estrutura social, por mais dura que ela seja, não se pode calar a voz da consciência humana. O humano transborda as estruturas, as formatações sociais, ele é por natureza um ser que protesta, pois percebe que é muito mais, que pode transcender sua imanência, buscar as alturas,não há regime político ou religioso que possa reduzi-lo: se prenderem suas pernas, mesmo ainda assim ele pode pensar; se o calarem ele pode continuar pensando; se prenderem suas mãos ele pode continuar pensando; se o colocarem numa prisão ele pode continuar pensando. O ser humano pode projetar-se além de qualquer poder inquisitório, ele pode com seu pensamento habitar e buscar as alturas – nos diz Boff.
Voltemos ao século XIII. Com Gregório IX (1233), a inquisição vai aos poucos sendo estruturada e recebendo o apóio do imperador e aos dominicanos é dada a missão de combater aos hereges. Segundo Frédéric, na população é despertado o sentimento de cólera. Aos poucos vários tribunais da inquisição são abertos pela Europa e o terror começa a tomar conta daqueles que fazem a descoberta e exercício do direito de livre pensamento e exercício de liberdade religiosa.
“Sem dúvida, a criação da inquisição sistemática foi, segundo a expressão de H.C.Lea, o produto lento de má evolução e ela somente começa realmente a funcionar entre 1231 e 1233. O absolutismo dos inquisidores será em pouco tempo reforçado por duas medidas características: a permissão de recorrer à tortura e de dar o perdão mútuo e reabilitarem-se uns aos outros”(MAX, Frédéric. p.19).
A inquisição perde sua força lá pelo século XIV devido à fatores como: resistência de bispos alemães e o grande Cisma em 1378-1417). “Quando houve a Reforma, a Inquisição já estava desacreditada na Alemanha, inoperante em Roma e, em 1517, tornou-se impotente diante de Lutero” (MAX, Frédéric. p.20).
A inquisição não foi um movimento passivo de poderes, ao contrário, percebemos que houve muitos conflitos de poderes papais que por meio de suas bulas autorizavam ou não tais práticas (documentos oficiais); dos bispos que muitas vezes se opunham às ordens de Roma e dos governantes (reis) que em muitos lugares tiveram a hegemonia controlando até mesmo o poder eclesial. A inquisição espanhola é vista como a mais independente e ortodoxa da Europa.(cf. MAX, Frédéric. p.22)
“Em 1498, a inquisição acrescentava a sodomia aos crimes sob sua jurisdição. Serão incluídos ainda os crimes de bigamia e de blasfêmia. No entanto, suas principais vítimas continuam sendo os conversos até 1520. Por volta dessa data, apresentaram-se novas presas: os alumbrados, grupo de iluminados, de místicos, principalmente de mulheres, as beatas, que minimizavam o papel da Igreja e o valor das cerimônias e diziam ter um meio de comunicação direta com Deus. Em seguida, foram os seguidores das teses de Erasmo, a princípio bem acolhidas, depois colocadas sob suspeita, embora o próprio Erasmo não tivesse ainda sido condenado. Iluministas e eramistas são perseguidos, e a Inquisição os incluía na mesma rejeição que os luteranos, que eram para a maioria dos espanhóis tocados por algumas das idéias de Reforma e também os verdadeiros protestantes, esses principalmente estrangeiros. Serão realizados grandes autos-de-fé, em Valladolid e em Sevilha, principalmente,de 1559 a 1562, e o protestantismo se apaga na Espanha que se fecha às influências exteriores e se isola completamente: Felipe II chama de volta todos os espanhóis que estão estudando fora. A censura é instaurada. Surge um índex em 1551, que será completado em 1559 e será renovado ainda muitas vezes. A partir de 1558 fica proibida a importação de livros estrangeiros”. (Frédéric, p.23)
A perseguição aos neoconvertidos (judeus) se torna ferrenha a partir do momento em que se desenvolveu uma política de expulsão de conversos da ordem dos jesuítas – era o estatuto de limpeza étnica. Lembremos a também perseguição aos bruxos; beatos; luteranos...
Na Espanha a inquisição teve alcance nacional na perseguição aos judeus e convertidos, seguindo Henry Kamen lá ela (a inquisição) foi deixada unicamente à perseguição dos hereges (cf. Frédéric, p. 26).
O que dizer da história? Interesses de poderes? Ironia! A mesma Igreja que na voz oficial dos papas autorizou a caça aos hereges, hoje vem pedir perdão, demonstrando-se arrependida pelos erros historicamente cometidos. Erros, porque a crítica, dentro de um contexto atual, fez a releitura e num horizonte de garantias dos direitos humanos, pode externalizar tal (visão)...Qual a função do arrependimento? Por que se arrepende? Seria o arrependimento um ato de expiação? Alívio de consciência que permite livrar-se ou tirar da pessoa ou instituição toda consequência da responsabilidade por seus atos? O cristianismo por meio de suas instituições, historicamente, falhou quanto à sua missão e experiência originárias, fundante. O respeito, o amor , o olhar carinhoso, a alteridade que se encontram na fundação, perdeu espaço aos interesses mesquinhos de seus líderes. É necessário voltar à origem, à primeira experiência e resgatar o que foi deixado, esquecido. Voltar ao primeiro amor.
Na Espanha a inquisição chega ao fim em 1808, quando Napoleão aos 4 de dezembro vai decretar sua abolição. É bom lembrar que a inquisição espanhola ganhou grande autonomia em relação a Roma (Santa Sé) e acabou sendo abolida por acharem ser ela contraditória à constituição do país. Segundo Frédéric, a abolição da inquisição não significou liberdade religiosa. E nessa constante substituição do trono em 1814Fernando VII assume o poder espanhol e traz, novamente, o tribunal da inquisição “o exercício de sua jurisdição e a censura de livros. Ao mesmo tempo o santo ofício foi igualmente restabelecido no México, em Lima e em Catagena (Frédéric. p.35) É importante notar que a inquisição em muitos países tornou-se um instrumento de poder nas mãos dos reis absolutistas.
Vejamos um pequeno trecho de uma declaração de alguém que sofreu o terror da inquisição:
“Desde o momento em que entrei nesta prisão, fiquei aflito o tempo todo e não cessei de derramar lágrimas, mas, de volta dessa segunda audiência, abandonei-me inteiramente à dor, vendo que estavam exigindo de mim coisas que pareciam impossíveis, pois minha memória não me fornecia nada do que eles queriam que eu confessasse. Tentei então dar cabo de minha vida pela fome.(...) Eu passava dias inteiros sem comer nada e , para que eles não percebessem, jogava no balde uma parte daquilo que eles me davam.(...) Eu não tinha dúvida, ao ser levado diante de meu juiz, que naquele mesmo dia terminaria meu julgamento e que após a confissão eles me colocariam em liberdade. No entanto, enquanto eu esperava a realização de meus desejos, fiquei desiludido e vi minhas esperanças caírem por terra de um só golpe, pois quando declarei tudo que eu dissera com relação à Inquisição, disseram-me que não era aquilo que esperavam de mim e , como eu não tinha mais nada a dizer, enviaram-me de volta à minha cela, sem nem ao menos transcreverem minha confissão. (...) Abandonei-me de tal forma à tristeza e ao desespero que faltou pouco para que eu perdesse inteiramente a razão (...).” (Frédéric, p. 115)
“Aquele ou aquela que vai parar nas prisões secretas não entende o que irá lhe acontecer. Ele não acredita ter feito nada ruim: o mistério que envolveu sua prisão, que equivale a um rapto, e o seqüestro imediato indicam que seu caso envolve a heresia. É evidente que a Inquisição envolve-se também com delitos relativamente menores como a bigamia e a sodomia ou a blasfêmia – e qualquer um pode facilmente ser acusado de blasfemador, por exemplo, por ter dito que não era pecador, um homem ter uma amiguinha. Por outro lado o santo tribunal desinteressa-se inteiramente pelos assassinatos, furtos e roubos. A heresia cobre um grande número de crimes: as práticas judaicas e mouriscas _ muçulmanas _ as crenças de iluminados, o protestantismo, sempre qualificado de luterano, e outros atentados à fé, como a simples posse de uma Bíblia em língua vulgar” ( Frédéric, p. 38).
Os relatos que acabamos de apresentar evidenciam o poder intolerante que historicamente foi plantado nas páginas de nossa civilização ocidental profundamente marcada e configurada pelo cristianismo. A expressão sofrida de cada um dos que foram perseguidos pelo poder da inquisição é expressão das múltiplas formas de negação da alteridade que já ocorreu em diversos contextos histórico-social e, infelizmente, continua sob outras formas sutis de exploração, censura, negação dos direitos fundamentais do ser humanos como o da liberdade de escolha: religiosa, política, ideológica. Percebemos que até o nome em relação à prática é contraditório: Santo Ofício. Chamar os atos coercitivos e de censura de “santo” é tentar dar autoridade, legitimidade àqueles que exercem o poder de julgar, condenar e matar os que são chamados de hereges.
Leitura da Obra de Goya
A corte da Inquisição
(Ver imagem no google)
A cor escura é marcante nesta obra de Goya. Escuridão que nos remete a um contexto de oposição à luz iluminista que pretendia iluminar (ser o farol) do século XVIII, contrapondo-se aos dogmatismos religiosos da época e a noite aparece como metáfora do secreto, do não permitido, do medo e da punição. Dualidade: luz e trevas (escuridão) foram durante muito tempo usada por historiadores que ao se referirem à Idade Média, horizonte teocêntrico, diziam Idade das Trevas e a modernidade, desde o racionalismo cartesiano de idade das luzes. A visão religiosa do mundo, da natureza foi aos poucos sendo abalada pelo emergir científico a partir do século XV. Os pilares religiosos medievais encontram-se com novos paradigmas científicos e políticos. É momento de novas críticas vindas de dentro e de fora da Igreja Católica e isso revela sinais de mudanças ideológicas, filosóficas e políticas. Como já foi mencionado, não é só crise da Religião é também momento de crise política que definiram reinados e aqui fazemos alusão a Espanha, com a intervenção napoleônica e a abolição da inquisição e mais tarde sua volta em 1814 com Fernando VII que recupera o trono.
A inquisição, em sua volta na Espanha, acabou se tornando um forte instrumento de coerção e sanção nas mãos do rei, do que propriamente um tribunal eclesiástico, como foi em outros países em seus inícios. O artista monta-nos o que supostamente, à nossa análise, seria um tribunal do santo ofício. Os personagens estão dentro da cena de acordo com o papel que cada um desempenha. Os homens de roupas mais claras e um tipo de chapéu, parecem-nos ser os que estão sendo acusados, ocupam um lugar de destaque na pintura.Seus rostos nos transmitem o pavor e o medo. Seriam opositores públicos do poder vigente? Hereges? A inquisição foi um instrumento de intolerância, também porque não permitia que as verdades estabelecidas fossem questionadas. Podemos até dizer que a intolerância é fruto de todo posicionamento autoritário que se funda em dogmatismos que legitimam os poderes instituídos.
Calar o outro, ou censurá-lo, por expressar suas idéias, suas convicções é próprio dos intolerantes. É claro que fazemos uma análise a partir de um contexto completamente diferente do século XVIII mas, mesmo assim podemos dizer que a inquisição espanhola foi a censura, ou a ditadura do século XVIII. A humanidade deu saltos importantíssimos em termos de direitos humanos firmados em documentos de reconhecimento universal, como por exemplo a Declaração dos Direitos Universais do ser humano em 1948. No entanto, há ainda,em muitos países inquisições modernas que tentam impedir pessoas de expressarem suas idéias, crenças, suas indignações, seus protestos. O temor aparece na história como uma das armas das posturas intolerantes. Sem mesmo conhecer em profundidade a biografia de Leonardo Boff, ex-padre católico, parece-nos ser um bom exemplo da intolerância (inquisição) moderna dentro da própria Igreja Católica. Vejamos como as audiências se davam segundo o livro de Frédéric Max:
“O inquisidor pergunta a ele muito seriamente o que ele deseja. Segue-se então o interrogatório sobre sua identidade, com o objetivo de descobrir toda sua genealogia, a pergunta ritual: ele sabe ou presume qual é o motivo de sua prisão? Qualquer que seja sua resposta, ele recebe a explicação, de forma pausada, de que o Santo Ofício não prende ninguém sem motivo. Se ele foi encarcerado, é porque há uma causa. Por reverência com relação ao Senhor e à sua Santa Mãe, ele deve dizer a verdade, o que lhe valerá a misericórdia do tribunal. Outras audiências serão realizadas, talvez com longos intervalos entre uma e outra. O acusado deverá contar sua vida inteira e uma grande atenção será dada aos personagens que ele visitou ou reencontrou, principalmente se forem estrangeiros. Ele se transforma assim em um denunciador,frequentemente sem perceber e o tribunal irá pedir-lhe que mencione vários nomes. Ele ainda não tem a mínima indicação do delito pelo qual está sendo julgado. O”. inquisidor repete a ele que para sabê-lo ele deverá voltar para o silêncio do calabouço e interrogar sua própria consciência”(Frédéric, p. 41).
Em um nível superior, parece-nos encontrarem os secretários ou relatores, aqueles que estão registrando os depoimento, é importante notar que são religiosos, a roupa e o corte de cabelo são peculiares. À frente estão sempre os padres em um lugar de destaque dando esse tom de evento religioso. Há dois padres sentados nas primeiras filas, parece que são pessoas importantes na hierarquia da Igreja isso se confirma pelo acessório que usam na cabeça, como símbolo de status religioso. Ao fundo aparecem pessoas sem rostos definidos, que supostamente, revê-la a idéia de pouca importância dentro do cenário da pintura, são apenas espectadores assistindo uma exibição do poder.
Biografia de Goya
Seu nome completo é Francisco de Paulo José de Goya Y Lucientes. Nasceu em 30 de março de 1746, em Fuendetodos. No ano de 1763, em Madri concorre a uma vaga na Academia. Segundo dados fez mais sucesso na Itália do que na Espanha. No ano de 1773 casou-se com Josefa Bayeu. No ano de 1786 Goya foi eleito pintor da corte espanhola, supostamente começou a ganhar mais notoriedade. No turbilhão da Revolução Francesa Goya e muitos de seus amigos sofreram a perseguição do poder político da época. Goya foi acometido por várias doenças a partir de 1792: passou vários meses deitado, paralisado e quase cego, segundo alguns mais entendidos essa fase se pode perceber em suas obras.A partir de 1789 o autor começa a trabalhar em umas de suas melhores obras, uma série de afrescos para a Igreja de San Antonio de la Florida. A fase da tomada da Espanha (1808) pelos franceses, também, se percebe em suas obras. Com a retomada do poder pela família real, na figura de Fernando VII e re-instaurada a inquisição, Goya retrata essa fase em sua obra que é objeto de análise nesse trabalho. Certamente por ter sido, acusado de obscenidade, por causa de suas obras A Maja Desnudada e A Maja Vestida. O artista passa pela fase “sombria” a partir de 1819 quando é novamente tomado por uma doença grave, eis a etapa das “pinturas negras”, repletas de feiticeiras, demônios e seres disformes. Decepcionado com a corte espanhola, Goya falece aos 16 de abril de 1828.(cf. ANDERSON, p. 5-7)
A repressão é intolerável:
A inquisição foi uma ação repressora do poder religioso institucionalizado. Não acredito numa relação causal, ou necessária, entre institucionalização e poder repressivo, contudo, vemos que muitas institucionalizações para se manterem dominando, acabam usando de muitos meios repressivos e sutis para calar a voz dos que não se enquadram em seus sistemas de verdades fechadas, absolutizadas, dogmatizadas. Ver o mundo por meio de outra ótica, para quem domina, é sinal de perigo, ameaça. O poder quando se sente ameaçado procura se defender e coloca em ação seus mecanismos coercitivos. Parece-nos que a Igreja Católica sentiu-se ameaçada, quando se deparou com outras verdades, outras visões de mundo, de Deus, de sociedade. É bom lembrarmos aqui que embora a inquisição tenha sido criada por membros da própria Igreja, nem sempre ela teve a aprovação oficial, como na Espanha. A inquisição espanhola acabou virando um instrumento de opressão do poder absoluto dos reis. Vejamos o que nos diz o professor Antônio Ozaí da silva:
“Historicamente, a intolerância está presente na esfera das relações humanas fundadas em sentimentos e crenças religiosas. É uma prática que se autojustifica em nome de Deus; adquire o status de uma guerra de deuses encarnados em homens e mulheres que se odeiam e não se suportam. Heinrich Mann (1993:11), em A Juventude do Rei Henrique IV, fornece uma descrição que nos permite visualizar os efeitos da intolerância religiosa:
“Mas no país inteiro também se incendiava e matava em nome das crenças inimigas. A diferença das crenças religiosas era levada profundamente a sério, e transformava as pessoas que normalmente nada separava em inimigos extremados. Algumas palavras, especialmente a palavra missa, tinham efeito tão terrível que um irmão tornava-se incompreensível e de sangue estranho para outro”.[1][1]
José Saramago (2001) denominou este ódio recíproco fundado em valores religiosos como “O Fator Deus”:
“De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus”.
A história das grandes religiões monoteístas – o cristianismo, islamismo e o judaísmo – indicam momentos de convivência respeitosa, mas também períodos de intolerância entre as diversas religiões e a intra-religião.[2][2] Os diversos fundamentalismos, cristão, judaico e islâmico, comprovam-no. O fundamentalismo se caracteriza pela resistência aos processos de modernização das sociedades, em todas as épocas. Os primeiros a utilizar este termo foram os protestantes americanos, os quais passaram a se autodenominar “fundamentalistas” com o objetivo de se diferenciarem do protestantismo considerado “liberal”. Para os “fundamentalistas” os protestantes liberais “distorciam inteiramente a fé cristã. Eles queriam voltar às raízes e ressaltar o “fundamental” da tradição cristã, que identificavam como a interpretação literal das Escrituras e aceitação de certas doutrinas básicas”. (ARMSTRONG, 2001: 10)
Na Idade Média, a intolerância religiosa se intensificou contra os judeus e os heréticos em geral. “Os inquisidores caçavam dissidentes e os obrigavam a abjurar sua “heresia”, palavra que em grego significa “escolha”, escreve Armstrong. (Id.: 24) A Inquisição na Espanha oprimiu os judeus, forçou-os à conversão ao cristianismo e, finalmente, expulsou-os da península. Esta se tornaria uma prática comum em outras épocas e outras nações. Com a identificação entre religião e política, entre as diferentes facções do cristianismo (católicos, protestantes, anglicanos etc.) e os respectivos governos representativos dos Estados-Nações, a perseguição aos dissidentes é intensificada e também motivada pelos interesses políticos em disputa. A inquisição espanhola, por exemplo, foi usada para “forjar a unidade nacional”. Mas a utilização deste recurso não se restringiu ao catolicismo romano. Como relata Armstrong: “Em países como a Inglaterra seus colegas protestantes também foram implacáveis com os “dissidentes” católicos, tidos igualmente como inimigos do Estado”. (Id.)
Com a formação e consolidação dos Estados nacionais modernos, a intolerância vincula religião e política, identificando uma à outra. O herege religioso é visto como um desafiante da ordem política monárquica; o dissidente político é encarado como um desafiador do dogma religioso adotado pelo Estado-nação” (www.espacoacademico.com.br)
A intolerância se manifesta pela classificação do outro: o diferente, o esquisito, o maluco, o herege (...). Há muitas formas, historicamente falando, consagradas de negação do outro, dentre elas aqui falamos da inquisição. Em nome de Deus a humanidade já matou, calou, queimou, torturou de muitas e muitas formas. Como aparece acima na citação, o herege foi visto como aquele que desafia a ordem política e religiosa, mas graças a esses desafiadores (dessas formas terríveis de opressão) é que aprendemos a dar saltos qualitativos na luta pelos direitos humanos.
Reler a história, penso eu, nos possibilita redimensionar nosso presente e projetar um futuro melhor. É ser sábio: aprender com os erros dos outros. Quando relemos um acontecimento histórico está presente o desejo e a vontade de compreendermos nossa historicidade. O estudo de um fato tem que ter o comprometimento de nos fazer melhor, ou seja, à medida que conheço e adquiro tais informações é preciso tornar-me melhor, perceber as intolerâncias que existem em mim, que cometo em relação à pessoas que não comungam de minhas convicções, de minha visão de mundo, de minhas crenças. Ontem, ouvi alguém citando Nietzsche e, atribuir-lhe a seguinte frase: “Verdade é uma palavra muito orgulhosa”.
Na raiz das intolerâncias está o desejo de imposição e defesa daqueles que se autodeterminam e acreditam possuir, monopolizar “a verdade”. E o que é a Verdade?
Referência Bibliográfica
ANDERSO, Janice. Vida e Obra de Goya.Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. 79p.
BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições – Portugal, Espanha e Itália – séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 530p.
GONZAGA, João Bernardino. A inquisição em seu mundo. São Paulo: Saraiva, 1994. 247p.
MAX, Frédéric. Prisioneiros da Inquisição.Porto alegre:L&P, 1991. 301p.
TEXTO SOBRE ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Texto para trabalho avaliativo em Filosofia – julho de 2011
A antropologia Filosófica aparece no cenário das discussões filosóficas tendo o ser humano como centro de suas reflexões. A preocupação em buscar uma definição sobre o ser humano não é uma discurso recente. A pergunta que acompanha a antropologia em todo esse caminho histórico é: “O que é o Homem”? Percorrendo a história da filosofia, em seus diversos momentos históricos, vamos perceber como são diferentes e muitas vezes divergentes as definições sobre o Homem. Vejamos: “Idade Arcaica: O Homem é visto na relação com o cosmo. Existe uma visão de sacralidade do homem com a natureza. Aqui o Homem estabelece uma relação de temor (medo) com a natureza. A religião lhe faz ler as realidades cósmicas como símbolos divinos e como espaços teofânicos (manifestação da divindade). Na Grécia, na figura de Protágoras, pré-socrático, o homem aparece como a medida de todas as coisas”. Com Sócrates, o homem é colocado no centro da reflexão. Descobre-se capaz de conceituar, de possuir a fala como função da justiça, da virtude para conseguir a felicidade. Platão chega à idéia do homem composto de corpo e alma. O corpo é visto como o cárcere da alma. É estabelecido o dualismo entre espírito e matéria. A alma é incorruptível, imortal, enquanto o corpo é visto como mortal, ou seja, finito. Para Aristóteles o Homem é visto como um ser em busca da felicidade (eudemonismo). Do ponto de vista político, Aristóteles define o homem como animal político. Na Antropologia pós-aristotélica o olhar de estudo prevalece sobre a eticidade. Depois temos o estoicismo e o epicurismo (duas correntes filosófica) que procuraram interpretar a vida do homem como busca da felicidade. Para o epicurismo a felicidade coincide com prazer (hedonismo), mas sempre entendido como razão, consistindo em satisfazer todas as exigências do homem, dando espaço ao gozo físico, psíquico e espiritual. Vemos na Antropologia do hebraísmo-cristianismo o homem abordado como imagem e semelhança da divindade (Deus). Para conhecer o homem é necessário conhecer a Deus. Deus é visto como amor, mas é apresentado como onipresença em função do amor. O homem é – pela primeira vez – considerado como senhor do cosmo, aquele que dá nome às coisas. Nas Antropologias em perspectiva cristã, exemplificando, temos Santo Agostinho, onde o homem é perene ser em direção ao Absoluto. O coração é a categoria hebraico-cristã na qual se concentra todo ser do homem (centro do Homem). O coração designa o homem que ama, pensa, quer, espera, desespera, que aponta para a verdade concreta e completa. O homem é imagem trinitária, reproduzido ao nível de intelecto, vontade e memória. “O homem é alma racional que tem um corpo; não faz duas pessoas(corpo e alma), mas apenas um homem”. A Antropologia da idade moderna, o homem é colaborador de Deus e artífice (autor) de seu destino. É visto como aquele que pode agir sobre a natureza, pode transformá-la. O homem passa a ver a natureza pelo olhar científico. Passa-se a ter a idéia de que tudo pode ser entendido pelos princípios das leis físicas. Em René Descartes o sujeito humano é considerado como o eu que pensa e, pensando, se assume como existente. “Esta é a verdade: Eu penso, portanto, existo”. Com a subjetividade se inicia o antropocentrismo. Em Karl Marx o Homem é visto pela ótica do econômico. O homem é capaz de transformar e produzir a natureza e a si próprio. “O homem é práxis (prática)”. (cf.Paulo Dullius). Mais recentemente filósofos chamados de existencialistas, como Sartre, abordaram o homem como um ser de liberdade, aquele que realiza sua existência no mundo a partir do exercício da liberdade, aparece como o único responsável pela sua vida, pois ao usar da liberdade se torna responsável por suas escolhas. São muitas as visões, pontos de vistas a respeito do fenômeno humano, ou seja, olhares múltiplos e diversos que procuraram e procuram captar aquilo que é o essencial do Homem e por isso o distingue de tantos outros seres. Durante algumas aulas vimos por meio de E. Rabuski algumas dimensões da vida humana: a eticidade, a cultura, a linguagem e por último a dimensão da comunicação. Todas essas visões a respeito da condição humana nos apontam para o enorme desafio da Antropologia Filosófica ao buscar aquilo que se apresenta como peculiar, essencial ao ser humano. Na questão da comunicabilidade nos aparece um ser aberto a todas essas dimensões elencadas acima. A dimensão da cultura nos revela um ser que transforma a natureza, pois precisa dela para criar seus modos de vida. Essa dimensão nos aponta para o enorme desafio da sociedade moderna com as questões ambientais. A dimensão da transcendência nos aponta para questões referentes ao problema religioso: as projeções humanas, sua relação com uma realidade além do mundo físico(material). A dimensão da comunicação com o Outro, nos traz a questão da sociabilidade, as relações sociais que se estabelecem entre os seres humanos e mesmo a valoração de tudo isso (ética). A dimensão do Eu, nos aponta para um mundo interior, da subjetividade, da consciência. O Homem não se volta apenas para a exterioridade, mas também se procura dentro de si mesmo. A Antropologia Filosófica enquanto uma área específica da filosofia acaba buscando em outros saberes informações que possam ajudar na dificílima tarefa de descobrir o que é ou quem é o Homem. Poderíamos dizer que a tarefa da Antropologia filosófica é também é a nossa tarefa – somos ou não somos humanos? A indagação a respeito da identidade humana é uma questão que não se encontra apenas no campo da reflexão teórica. Temos motivos de sobra para nos aventurarmos nessa busca filosófica a respeito daquilo que é essencial ao Homem. Vivemos num mundo real, situado, concreto e essa realidade nos coloca diante de dois sentimentos que parecem ser antagônicos: admiração e indignação. Tantas vezes estamos na posição de admiração diante da beleza da vida humana e de seus feitos, outras vezes, indignados diante de tanto horror causado pelo mesmo homem: da arte em barro ao aço forjado; do clássico ao popular; do mito à ciência; do artesão às fábricas; de Caim à madre Tereza; de Francisco a Hitler; dos palácios às favelas; das carroças aos automóveis; dos tempos de paz aos tempos de guerra; dos campos floridos às bocas famintas; do luxo ao lixo; do lápis ao computador; das cavernas aos modernos edifícios; do Egito à terra prometida; do céu ao inferno; da democracia aos totalitarismos; da liberdade à repressão; de Narciso à TV; do indivíduo à massa; da vida à morte; do nada ao ser; do local ao global; do silêncio à fala; de servo a senhor; da tolerância às intolerâncias;(...). Diante disso continuamos a nos perguntar: O homem, o que é? - ou ainda - o que não é? – ou - o que deveria ser? Caso você se pergunte o que isso lhe diz respeito, é porque esse Homem do qual falamos: sou eu, é você, somos nós.