ÁGORA
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A Ágor Ágora de Atenas: aspectos políticos, sociais
e econômicos- Gláucia
Rodrigues Castellan
Licencia História/USP/glaucia@klepsidra.net / http://www.klepsidra.net/novaklepsidra.html |
Este artigo tem por objetivo mostrar o
importante papel que a ágora de Atenas desempenhava como o
espaço público mais visado e valorizado da cidade-estado grega. Era na ágora que
as pessoas de uma mesma comunidade se relacionavam, elas saiam de dentro de seus oikos e
iam se reunir nesse grande centro de circulação de produtos ideias e pessoas,
ou seja, um ponto de reunião – independente de haver troca de bens -, era este
o sentido que a ágora tinha.
Esta
“praça” pública se caracterizava como um espaço construído, permanente e fixo,
que, tinha também um sentido político – era o lugar onde se deliberavam
assuntos importantes para a vida dos cidadãos e da sociedade como um todo.
Neste sentido, encontraremos uma contraposição entre os povos que tinham
a ágora e os que não a tinham. Estes últimos eram considerados
bárbaros, pois, na maioria das vezes, tinham como forma de governo a monarquia
e, como tal, não deliberavam, pois, entendiam não ser necessária a discussão
uma vez que apenas uma pessoa decidia por todas as outras.
A palavra ágora se originou do verbo agorien,
que no século VIII a.C significava discutir, deliberar, tomar
decisões; mas com o passar dos séculos seu sentido foi mudando e já no
século IV a.C agorien significava comprar. Dessa forma,
o comércio pode ser definido na sua forma mais simples como uma circulação, uma
transferência de bens. Entretanto, para que essa movimentação possa ocorrer, se
faz necessário que haja pelo menos dois indivíduos envolvidos. Assim, cada pessoa
leva seus produtos e havendo o interesse e a possibilidade eles trocam as suas
mercadorias (essas trocas podiam envolver ou não dinheiro).
No
entanto, se fazia necessária a existência de um espaço físico para que essa
transferência de bens pudesse acontecer. Dois locais eram preferencialmente
utilizados pelos antigos gregos para tal transferência: as ágoras e
os portos. Estes eram dois espaços físicos em que se materializavam, se
concretizavam as relações entre os homens. Na ágora, eram
realizados diversos tipos de trocas, e no porto muitos tipos de materiais e
objetos eram levados para serem transportados através da via marítima.
Na sua forma mais simples,
a ágora pode ser definida como uma grande praça aberta
utilizada para funções públicas. Era nesse local que um grande número de
cidadãos se encontravam para diversas atividades, assembleias, festivais,
eleições, competições atléticas, desfiles, mercados, e similares. Assim sendo,
a ágora tornou-se o centro da polis, pois os edifícios
públicos da cidade foram sendo construídos ao redor do lugar onde as pessoas
frequentemente se encontravam.
Podemos dizer que a ágora grega foi a precursora do fórum
imperial romano, das grandes “piazzas” e praças das capitais da Europa. Ao
redor dessa praça, acontecia um grande número de atividades religiosas,
sociais, comerciais, judiciais, legislativas e administrativas, que tornaram
a ágora o coração de uma cidade antiga. Dessa forma, assim
como todas, a ágora de Atenas acomodava todos os aspectos da
vida antiga.
As
primeiras ágoras eram abertas para a comunidade e o acesso era
livre. Havia uma tendência de se estabelecer esse “ponto de encontro” nas
encruzilhadas ou nas principais vias da cidade.
Em meio a todo esse “caos” urbano, a ágora surgiu como um
espaço aberto que aos poucos foi se fechando, pois, com o passar do tempo a
cidade antiga foi se organizando e esta passou a ter um tamanho delimitado de
acordo com os quarteirões e o plano ortogonal. Esta ideia de um plano regular
foi atribuído – na tradição clássica – a Hipodamo – natural da região de Mileto
e, que teve seu auge em meados do século V a.C – Hipodamo surgiu como um
reformador, um planificador e um teórico político utópico. Aparentemente, foi
lhe concedida alguma oportunidade de aplicar as suas ideias no Pireu (porto
de Atenas) e talvez ainda em outros sítios. No entanto, a resistência foi forte
e, por algum tempo, com êxito. Tal resistência se devia ao fato de sua
abordagem ser demasiado abstrata e formalmente matemática, pouco ligada ao
terreno grego - muito irregular como habitualmente era - ou à maneira como os
gregos viviam e funcionavam.
A ágora era circundada por longas stoai, que nada
mais eram do que largos pórticos abertos que protegiam o visitante do frio e do
calor ao mesmo tempo em que traziam luz e ar. Além disso, as stoai preenchiam
importante função social na vida da cidade, pois eram nesses locais que os
cidadãos se encontravam para discutir negócios, política, ou filosofia.
Nos
edifícios como a Stoa Real e a Stoa do sul I,
estavam os responsáveis pela administração diária da cidade. Os legisladores
atenienses diariamente se encontravam no Bouleuterion localizado
em toda a extensão do lado oeste da praça. Já no Metroon estavam
guardados os arquivos centrais. Os Forunsestavam localizados na
parte nordeste e sul da praça; o que nos mostra uma conexão entre a ágora e
o poder judiciário. Todos os dias aconteciam atividades comerciais nessa área
nas formas de grandes mercados, em pequenas lojas particulares, nas ruas, e na
própria praça.
A ágora também servia com um importante centro religioso,
juntamente com o Hephaisteion (templo localizado na colina
oeste), a praça possuía um grande número de altares e pequenos santuários,
muitos eram dedicados aos semideuses conhecidos como heróis. Como esses
santuários estavam localizados justamente no centro da vida cotidiana, na
maioria das vezes acabavam recebendo uma atenção mais regular do povo do que os
grandes edifícios de culto erigidos pelo Estado na Acrópole.
Um bom exemplo disso ocorreu na
reconstrução, após a invasão persa, quando os atenienses ocuparam-se primeiro
da ágora, ignorando a Acrópole. A escolha foi sem dúvida, motivada
pela urgência de restabelecer ordenadamente a vida cotidiana, talvez também
devido a fundos limitados. Mas surge a tentação de ver igualmente uma razão
psicológica, expressa numa citação conhecida e feliz de Aristóteles: (…) “‘Uma
cidadela (acrópole) adequa-se a oligarquia e à legislação de um só homem, o
terreno plano à democracia.’” [7] Em
menos de uma geração, contudo, a posição modificou-se. A democracia triunfante,
rica, auto suficiente e imperialista, governada por Péricles, voltou à
Acrópole, que era um local venerável, fazendo dela não apenas o seu maior
centro religioso, mas também o símbolo visível do poder e a da glória de
Atenas.
De maneira geral, uma ágora típica
era o ponto focal da vida pública de uma cidade-estado grega , o principal
centro do comércio interno, aquele que se alimentava através das vias
terrestres. Na ágora, cada negociante possuía seu lugar determinado
e devidamente pago. Para entendermos melhor o movimento comercial no interior
da ágora de Atenas, nos utilizaremos da magistral descrição de
Gustave Glotz em História Econômica da Grécia:
Entretanto, a ágora de
Atenas tem um significado muito mais amplo, e diversos aspectos a diferenciam
de outros grandes centros cívicos explorados até agora na Grécia.
Isso se deve ao fato da
proeminência da Atenas, pois a maior parte dos textos, da literatura e da
história que foram preservados, são de origem ateniense e sua ágora serviu
como palco e pano de fundo para muitos eventos significativos da história
grega. Entre as muitas pessoas associadas com os maiores feitos da civilização
grega clássica, muitas nasceram em Atenas e outras são provenientes de todo o
Mediterrâneo, deram sua contribuição para um período notável de grandes
realizações intelectuais e artísticas. Homens de Estado, autores de peças
teatrais, historiadores e artistas, filósofos e oradores, como Tucídides,
Ésquilo, Sófocles, Demóstenes, Fídias e Práxiteles, surgiram na Grécia nos
séculos V e VI a.C., quando a mais poderosa cidade-estado de Grécia era Atenas.
Juntos, estes homens foram responsáveis por plantar as sementes das
civilizações ocidentais, e ambos frequentavam a ágora – que
foi usada para performances teatrais, procissões religiosas, competições
atléticas e desfiles. Sob a liderança de Sólon, Clístenes e Péricles, a
instituição política da democracia também tem na ágora suas
raízes. Mesmo quando a significância política, econômica e militar não era mais
evidente, Atenas permaneceu como influência cultural e educacional por séculos,
atraindo professores e alunos de filosofia, lógica e retórica até o século VI
d.C.
Como
vimos anteriormente, a ágora, antes do século IV a.C era um espaço
físico onde as discussões aconteciam, era um local de culto e era um lugar de
comércio. Ela não era uma ágora especializada. Isso nos mostra que
nesse tipo de sociedade, as relações políticas, sociais e econômicas estavam
inter-relacionadas. Não era a economia que regia a sociedade, mas a posição
social do indivíduo em relação aos meios de produção. Os vários aspectos da
sociedade se encontram misturados e eram inseparáveis. No entanto, a
partir do século IV a.C, as ágoras começaram a se
especializar. Aristóteles considerava importante que houvesse essa
especialização, para ele, o melhor seria que houvesse uma ágora para
as discussões, outra para os negócios e uma terceira para o lazer. “Na
Tessália, por exemplo, as diferentes funções da ágora (originalmente
local de reunião da comunidade, antes de se tornar centro econômico) estão
deliberadamente separadas: há uma ágora ‘livre’, reservada à atividade cívica e
política e da qual está excluída qualquer função econômica. Esta última está
concentrada numa ágora especial, a ágora comercial.” Já
Platão, nas suas Leis, prescreve que não se recebam os comerciantes estrangeiros
senão fora da cidade, e que se tenha um mínimo de relação com eles.
Encontram-se aqui, uma vez mais, velhos preconceitos, em parte dirigidos contra
a atividade econômica enquanto tal, em parte contra o estrangeiro e tudo o que
ele comporta como riscos de influências nefastas vindas do exterior.
Assim
sendo, com passar do tempo a ágora foi sofrendo
transformações, se em época grega começou a se especializar, em época
romana isso aconteceu de forma ainda mais intensa. Então teremos uma ágora para
negócios, uma para política e outra para o lazer. Também em época romana
teremos a ágora monumental - uma praça de propaganda política
e de culto ao imperador.
Em nenhum
outro lugar foi encontrada uma história tão ricamente ilustrada como aquela que
se tem na ágora. Na área aberta da grande praça, monumentos foram
erigidos para comemorar os triunfos, ao seu redor, edifícios cívicos foram
construídos para a administração da democracia, ao mesmo tempo, em que além dos
seus limites, a ágora era repleta de casas e oficinas daqueles
que faziam de Atenas a cidade mais proeminente da Grécia.
A exploração arqueológica da ágora tem colaborado para uma
compreensão maior não apenas de um lugar específico, mas sobre vários aspectos
da civilização grega clássica. A cidade de Atenas nos fornece uma grande
quantidade de material para o entendimento da ágora e de suas
construções. Construções estas tão pobremente preservadas que muitas de suas
ruínas mal podem ser observadas na superfície. No entanto, “fontes escritas nos
descrevem a respeito de encontros e julgamentos ocorridos ali, apresentações de
filósofos ou pinturas que decoram as paredes. São encontradas, em autores da
antiguidade, inúmeras referências que mencionam especificamente a ágora e
seus monumentos, e em nenhum outro lugar da Grécia as fontes enriqueceram tão
bem o nosso entendimento sobre as ruínas.”
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